Opinião: Como medir o valor dos alunos?

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Segundo James Vincent (Beyond Measure. Faber 2022 ), medir foi a salvação da humanidade. O homem primitivo não tinha ainda os conceitos (tempo, peso, comprimento, altura, largura, profundidade) e muito menos os instrumentos para medir, que levaram muitos milhões de anos a construir.
Imaginem hoje, como exemplo, um hipermercado sem horários, sem balanças, sem computadores e sem os terminais de pagamento que calculam os preços em segundos. Ou um hospital sem toda a engenharia informática que analisa e retrata a corpo inteiro, mas também as mais pequenas partículas a nível celular. Basta considerar o aumento progressivo da longevidade ao longo da história para ver como a medida e os instrumentos de medida asseguram a nossa sobrevivência. Vivemos hoje muito mais que os nossos pais, avós e bisavós (…).
Medimos com facilidade objetos físicos, temos dificuldade em medir tudo o que não tem corpo: conhecimentos, atitudes, sentimentos, valores, princípios, espírito de iniciativa, solidariedade, empenhamento, dinamismo, liderança (…). Temos os conceitos, valorizamos ou desvalorizamos, mas não temos instrumentos de medida fiáveis para as atividades da mente e do espírito. O trabalho de psicólogos, psiquiatras, juízes, professores é um exercício no vácuo, não vemos nem apalpamos o que queremos medir. Veja-se a guerra com os árbitros de futebol: as suas decisões são boas ou más conforme as cores do arco-íris, justas a verde, injustas a vermelho, manipuláveis a azul, criminosas sempre para quem perde e virtuosas para quem ganha.
Este é o problema da educação: os professores têm os conceitos, mas não têm os instrumentos de medida adequados e fiáveis para os medir. Toda a investigação comprova que as mesmas provas escritas vistas por diferentes professores têm valores diferentes. Um exemplo à vista de todos é a classificação dos exames submetida a recurso para melhoria de nota que por vezes duplica a classificação inicial.
Mas o problema maior assenta num erro grave que surgiu com a educação de massas: medir pessoas sempre diferentes com um instrumento de medida normalizado. Podemos ter alunos geniais na música, no desporto, na matemática, na filosofia, no canto, na escultura, se não obedecerem à norma do exame, chumbam, são excluídos e impossibilitados de cumprir a sua vocação.
A primeira grande revolução que marcou a transição do ensino individual para a educação de massas foi a revolução para a normalização, há 200 anos, que agora tem de dar lugar à revolução para a personalização, implícita em todas as orientações para a educação de todos, desde a DUDH em 1948, que consagra o direito de todos à educação, às grandes conferências mundiais sobre educação para todos (Jomtien 1990 ), sobre a educação de crianças e jovens com necessidades educativas especiais (Salamanca 1994 ) até às mais recentes orientações sobre escolaridade obrigatória e inclusão, em tantos países por cumprir. No nosso já é lei, mas não é prática garantida. O sistema de classificação em vigor implica a exclusão de muitos, a todos os níveis.
O perfil de cada pessoa é único, todos sabemos que não há duas pessoas iguais. Logo, em educação não há um perfil único para todos compatível com uma ação pedagógica e um modelo de classificação normalizados. A resposta que temos de dar é a de educar cada pessoa no respeito pelo seu perfil, a sua identidade, os seus talentos ou as suas fragilidades. Impossível? Apenas para os docentes que não tenham a formação orientada neste sentido, que o estado não garantiu. Nem as justas reivindicações dos professores nem as respostas do ME contemplam a formação e a melhoria da qualidade dos professores. Na minha perspetiva erradamente.
É urgente personalizar a educação de acordo com o perfil de cada um e redefinir os métodos e processos de avaliar e melhorar as suas potencialidades até aos mais elevados níveis de especialização acessíveis às circunstâncias pessoais. Este é o desafio. Uma criança cega e uma criança surda têm um perfil específico, mas têm capacidades cognitivas compatíveis com pessoas brilhantes, como pude testemunhar e hoje é fácil de comprovar.
A personalização é difícil? Sim, a mudança de paradigma implica sempre mudança de mentalidades. Mas temos hoje o conhecimento e os meios para agilizar esta evolução. O maior obstáculo estará sobretudo no aparelho do estado, principal foco de resistência à mudança, sobretudo quando se desvalorizam os seus atores e não se valorizam os resultados da sua ação. Não disponho de nenhum instrumento de medida para classificar a educação dos políticos, mas assim a olho haveria por aí muito chumbo.

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