Opinião: Que impertinentes

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Há um par de anos, num jantar com velhos amigos, perguntei às filhas, raparigas acabadas de licenciar, se não as preocupavam as questões das alterações climáticas. Sendo todas de ciências, com compreensão do tema, surpreendia-me que os motivos das conversas não passassem mais amiúde pela questão. Percebiam a magnitude do problema, tinham noção dos impactos futuros nas suas vidas. Talvez ainda não tivessem tomado consciência total mas estavam a um passo. Perguntava-lhes como não falavam mais do assunto, como não se revoltavam com a ineficácia da abordagem presente à questão. Continuo a perguntar-me.
E eis que há uma mini revolta. Bastante civilizada, até. Com ocupação de escolas e faculdades. E eis que grande parte dos comentadores tem uma reacção desproporcionada e lateral. Com uma indignação deslocada, demonstrando uma irritação surpreendente, não com quem promove as causas nem com quem as não regula eficazmente mas com quem vocaliza e alerta… (Já tínhamos visto semelhante, em muitas reacções aos discursos e activismo da Greta Thunberg. Muitas de uma especial mesquinhez, diga-se).
Quase todas as reacções negativas menosprezando os activistas, pela sua juventude, pelo seu modo de vestir, por não saberem propor soluções, por a ocupação ser ilegal, etc, etc. Paradoxalmente as mesmas vozes costumam criticar as gerações jovens por serem individualistas e não se preocuparem com o colectivo, com a sociedade, só pensarem em diversão. Entretanto preocupam-se, organizam-se, manifestam-se e são alvo de barragens de artilharia verbal, não contra os argumentos mas contra, basicamente, a “impertinência” de se estarem a manifestar.
Ocuparam o seu local de trabalho, como operários em greve, não por melhores condições “laborais” (o que já seria justo) mas por um futuro para todos. E de forma civilizada.
Soluções não precisam obviamente de as propor. As soluões são conhecidas, há é inoperância pelos países em as seguir.
O protesto apenas é eficaz se incomodar. A Rosa Parks cometeu uma ilegalidade ao se recusar em dar o seu lugar a um branco. A Emily Davinson cometeu uma ilegalidade ao se atravessar à frente do cavalo do rei Jorge V.
As reacções altaneiras transmitiram em suma a ideia de “não se metam em coisas de adultos, nós é que sabemos, metam-se no vosso lugar”. E depois temos os resultados da COP 27, infelizmente nada surpreendentes, em que nem as decisões para garantir as tímidas metas de Paris são tomadas. Sem dúvida que “estamos bem entregues”.
Faltam-nos impertinentes, que não lhes falte a impertinência.

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