Opinião: bagagem d’escrita Capadócia Turquia – 2007

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Após mais uma noite passada num autocarro, chegava de madrugada a Goreme, bem no coração da Anatólia, na Turquia. Este vale é uma zona de santuários escavados na rocha e pintados com frescos bizantinos do séc. XI num deserto onde se refugiou a primeira comunidade cristã, no séc. IV na nossa era.
A manhã é a melhor altura para bater a zona, antes de chegarem os incontáveis grupos de turistas que acabam por sufocar a magia do local. Os vendedores de souvenirs começam a preparar as suas tendas com mil e uma quinquilharias para serem despachadas para os estrangeiros. Bebem o primeiro de muitos chás enquanto puxam de mais um cigarro para ajudar a passar o tempo enquanto aguardam pelas primeiras hordas dos esperados visitantes.
Toda esta área encerra em si uma paisagem muito própria. Um naipe muito alargado de pequenos montes rochosos, a maioria em forma de chaminé, dão lugar a algo que se assemelha a uma cidade de formigas. É notória a facilidade com que se conseguiu escavar essa matéria, o que levou a que se construísse um enorme complexo habitacional, uma multiplicidade de templos e também fortificações, os chamados castelos trogloditas.
Aproveito a escassez de gente para percorrer alguns mosteiros com preciosos frescos como é o caso do convento das freiras ou o dos monges. Vale a pena dar uma olhadela no refeitório, com uma enorme mesa talhada na pedra. A construção mais conhecida é a igreja negra. Este edifício, que adquiriu este nome por ter poucas entradas de luz, teve assim a sorte de preservar melhor as obras de arte que contém no seu interior, onde sobressaem episódios bíblicos como a traição de Judas.
Mas Goreme, ou a Capadócia, não vale só pelo vislumbrar destas estranhas construções. É obrigatório fazer algumas caminhadas por itinerários demarcados e apreciar a paisagem envolvente. Dirigi-me para Ortasihar para rever o castelo troglodita de 18 metros de altura escavado num enorme penedo. Apesar de se encontrar em processo de restauro, contornei os obstáculos e subi ao cimo para contemplar uma vez mais a soberba vista de toda a área, com a mais valia de ter sido ao fim da tarde. O regresso é feito já com o cair da noite, sendo parte do percurso feito a pé, sob a ténue claridade da lua. Foi um dos belos exemplos que nos mostram que, por norma, a melhor altura para conhecer um espaço é antes ou depois do pôr-do-sol, quando sentimos que somos só nós e o cenário que visitamos.
Passo a noite numa das muitas casas escavadas na rocha. Ressalta o ambiente fresco proporcionado pela profundidade da habitação e pelo isolamento térmico. Pela manhã, mais um pequeno-almoço avantajado com pão acompanhado pelos habituais doces, mel, queijos vários, tomate, pimentos e chá preto. Quem tem uma carteira mais recheada, pode fazer uma viagem de balão e vislumbrar a área a partir de cima numa experiência que, pelo que diz quem a viveu, é inesquecível.
Optei por seguir de minibus para Zelve, um antigo retiro religioso entre os séc. IX e XIII que é famoso não só pelos seus mosteiros, mas sobretudo pelas chaminés de fadas, uma formação provocada pela acção da erosão nas rochas, moldando-as em forma de chaminé ou cogumelo. É um sítio único, a julgar pela paisagem árida, quase desprovida de vida, sob um calor infernal, com um tom de pedra tão particular e formas tão onduladas. A pedra, sedimentos de antepassado vulcânico, é tão frágil que se esfarela com o nosso passar de mãos, daí a facilidade com que se construiu este enorme complexo com vários quilómetros de extensão que forma o monumento classificado de Património da Humanidade pela UNESCO que se chama Capadócia.

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