bagagem d’escrita – Epopeia num dia longo (parte 2 ) Paquistão – 2022

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Os quilómetros percorridos foram-me dando a ideia de que os meus companheiros de viagem eram, pelo menos nas horas vagas, traficantes de droga, sobretudo quando pararam para entregar um embrulho que tinham muito zelosamente escondido debaixo do banco do condutor. Após a transação comercial, seguimos caminho.
O carro deixa a estrada principal e estaciona num descampado junto a um rio. Pensei em muita coisa, o coração bateu mais forte com as várias especulações que me passaram pela cabeça, mas mantive a máscara de serenidade até desvendar o episódio seguinte. Saímos da viatura, e reparo que esse condutor, de bigode farfalhudo e ar bonacheirão era inválido das pernas, arrastando-se com mestria na desgastada canadiana que o apoiava sob o ombro direito. Olhei para ele e pensei novamente em muita coisa, não quis meter o dedo em ferida nenhuma, mas supus que esse infortúnio estivesse relacionado com a guerra do Afeganistão, fosse antes ou depois de 2001. A imagem de fundo do seu telemóvel era o seu retrato, sentado entre duas metralhadoras com ar triunfante. Haveria ali seguramente uma história longa e penosa para contar.
Atravessámos uma ponte que dava acesso a um quintal junto ao rio onde estava um grupo de pessoas. Era o seu irmão, uns primos e amigos. Deram-me a sua melhor cadeira e mandaram o rapaz mais novo ir fazer chá. Mostraram-me o porquê de ser impossível chegar a Gilgit, e ofereceram-me dormida. Agradeço-lhes a suprema hospitalidade mas, tal como no livro ”O Profeta”, de Kahlil Gibran, expliquei-lhes que gostava de estar ali na sua companhia, mas que tinha de seguir o meu rumo, por mais difícil que ele se apresentasse, acrescentando que apesar de ali estar à conversa com eles, os meus ouvidos amplificavam-me o som dos poucos carros que passavam naquela estrada na direção que também tinha de ser a minha. As probabilidades eram poucas, mas tinha de lutar em vez de me resignar com a minha situação. Eles compreenderam isso. Levantámo-nos e levaram-me para a borda da estrada. O primeiro carro que passou respondeu ao gesto deles e parou. Por sorte, seguia para Gilgit. O condutor mandou-me entrar e seguimos viagem depois de me despedir efusivamente de toda aquela boa gente.
Zahid Ali Baluch era um amante de fotografia, e a conversa germinou com a melhor das naturalidades. Contou-me que essa arte era já uma paixão ancestral da sua família à qual ele dava continuidade. Vestido de preto, tal como os xiitas nestas celebrações, e envergando um lenço que o seu falecido pai lhe ofereceu há uns anos após uma viagem ao Irão, contou-me que era de um outro ramo do xiismo, pois era ismaelita.
Mas que tiro em cheio que tinha dado, pois retirei logo da minha mochila a T-shirt que tinha trazido comigo do nosso Presidente da República com Aga Khan, o seu líder religioso, cuja fundação está sediada em Lisboa. Já a tinha utilizado há três anos atrás, quando viajei por umas zonas ismaelitas no Tajiquistão, e agora tinha trazido pois havia outras comunidades nesta zona que comungavam do mesmo credo. Foi a apoteose para os olhos deste homem de trinta anos ficar a par desta ligação afetiva a Portugal, o que apenas veio reforçar o bom entendimento que já tínhamos.
Contou-me que a situação na cidade estava tensa pois alguns dias antes houve incidentes com grupos radicais sunitas do qual resultaram dois mortos xiitas, pelo que deveríamos manter uma certa calma e cordialidade, nomeadamente quando passássemos nos bairros sunitas. A sua expressão tensa indicava que isto não seria fácil. (continua)

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