Opinião: Ser feliz em empresas de tecnologia: dias contados?

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A Exame volta a divulgar, na sua edição de novembro/2022, “As 50 melhores empresas para trabalhar em Portugal”. Num país onde ter um trabalho corresponde a ter um propósito, onde a taxa de desemprego tem vindo a decrescer, onde não há profissionais para trabalhar em tecnologia, havendo cada vez mais empresas do setor tecnológico a procurar Portugal para se instalarem e as empresas se reinventam criando estratégias inovadoras para se tornarem mais apelativas, promovendo o seu employment branding, reduzindo os custos da rotatividade e o quiet quitting, estaremos preparados para gerir o que sucederá se as empresas de tecnologia começarem a despedir pessoas como já se está a assistir no Twitter e na Meta (Facebook)?
Ao longo das duas últimas décadas, a área da tecnologia (IT) adquiriu um glamour que os primeiros profissionais de Engenharia Informática – os dos anos 80 e 90 – talvez nunca pensassem ser possível. O facto de, no início, as funções relacionadas com a infraestrutura estarem, tendencialmente, localizadas na cave ou de um programador passar toda a sua vida a dedilhar linhas de código e controlar bugs, não tornava o trabalho muito apetecível. Porém, a atualidade recente trouxe novas funções ao IT – muitas delas asseguradas por profissionais de grandes consultoras – a programação ágil veio para ficar, tal como as profissões de ciência de dados (que trouxeram também muitos profissionais de matemática aplicada, estatística, ciências sociais, gestão, entre outras), cibersegurança e outras relacionadas com a análise de processos necessária à transformação digital. O informático isolado, “bombeiro” e generalista tem tendência a desaparecer. A profissão de cientista de dados, anunciada por Thomas Davenport em 2012 como a mais sexy do século XXI, acabou por contagiar as áreas de IT. As empresas de IT pretendem não apenas profissionais mas os melhores talentos: constroem academias de formação interna para preparar as suas pessoas, recrutam nas melhores universidades, com as quais constroem relações de proximidade, reveem regularmente salários e recompensas, garantem formação adequada e bons ambientes para trabalhar. Isto não se verifica apenas em Portugal: é uma realidade global.
Em Portugal, as 25 primeiras empresas consideradas pela Exame como as melhores para trabalhar incluem, em 2022, 13 do setor de tecnologia. Em 2021 eram 10 e, em 2019, 11, ou seja, estes profissionais têm condições de excelência que eles próprios assim avaliam e que são também inspiração para empresas de outros setores, onde se incluem os modelos híbridos de trabalho e semanas em que a sexta à tarde é flexível ou casual day, e talvez seja por aqui que a semana de 4 dias se tornará uma realidade. Isso conduz, espera-se, a pessoas felizes e pessoas felizes produzem 3x mais, segundo Juan Carlos Cubeiro, “o economista do talento” segundo a Exame. Estarão as tecnológicas e os seus colaboradores numa bolha de privilégio que estará prestes a estoirar? Ou teremos condições para que estas empresas continuem a evoluir e a atrair o talento que pretende permanecer em Portugal? O modelo de gestão Elon Musk já começou a fazer os primeiros milhares de vítimas na semana passada… esperemos que o efeito não seja o de dominó…

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