Opinião: “O Senhor da Cidade”

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Oh não, outra vez os plátanos?!…

Sim e não. Servem os plátanos expiatórios de mote para olhar para a vida na cidade. Não sendo o primeiro a escrever sobre isto, nem o mais habilitado, então porquê importunar com um assunto resolvido? Porque, de facto, não estará resolvido. Há outras árvores no mesmo caminho, tanto no sentido figurado como no literal. E, também, porque é um exemplo de um paradigma de uso da cidade e da mobilidade que, serodiamente, se mantém inamovível.

Na troca de argumentos pré-abate várias vezes se perdeu a justificação desse abate. É comum. Argumentos laterais como as já tantas vezes desmontadas alergias ou o “não há alternativa” e ainda o estafado “não parar o progresso” surgiram amiúde reclamando resposta. E, ao desviar para essas respostas laterais, dificultou-se a análise da verdadeira justificação para o abate avançada pela própria Sociedade do Metro Mondego.

A estratégia resultou numa divisão falaciosa, o partido dos plátanos contra o partido do “Metro”. Mas era essa a divisão? Quem queria que os plátanos não fossem cortados é contra o “Metro”?

Analisemos a justificação:
“A SMM explica que o canal dedicado do metrobus foi assim desenhado porque é “a solução que penaliza menos o tráfego rodoviário”.

Percebemos então que o conflito não é entre as árvores e o “Metro”. Não é entre as árvores e o transporte público. Não é entre as árvores e o progresso. O conflito é entre as árvores e o automóvel particular. Ou seja, é entre duas visões da cidade, uma que privilegia a qualidade de vida de todos e o usufruto do espaço público, outra que se agarra aos privilégios que o automóvel particular tem na cidade.

Enquanto esta última visão se mantiver, manter-se-ão as opções observadas. Os plátanos e jacarandás vão abaixo (eu já não voltarei a ter sombra na Emídio Navarro). As avenidas estarão cheias de carros dificultando o transporte público e o atravessamento pedonal (experimentem os semáforos pedonais da Avenida Fernão Magalhães junto à Loja do Cidadão). A poluição atmosférica manter-se-á imensa, exponenciando problemas respiratórios (incluindo alergias). A poluição sonora também. Os passeios sofrerão reduções para não afectar o estacionamento privado em espaço público. Etc. Etc.
Esta é uma visão que já era obsoleta há trinta anos. Já estudada nos cursos de arquitectura e urbanismo de então. De que vale, assim, louvar a criação de uma licenciatura em Gestão de Cidades Sustentáveis e Inteligentes se não se aplica “hoje” o que já se sabe desde “ontem”?

Enquanto o automóvel particular for o Senhor da Cidade, os munícipes não passarão de meros súbditos.

Nota: sobre o “Metro” (entre aspas) o que teria a dizer já foi escrito de forma sagaz, clara e pertinente (como costume) pelo Doutor Jorge Paiva na missiva “A Ditadura de Coimbra” publicada neste diário.

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