Opinião: “Este país ainda é para velhos”

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É, certamente, um estereótipo, mas não só. De acordo com dados oficiais recentemente divulgados, a população japonesa continua a envelhecer a um ritmo acelerado. Este fenómeno, aliado ao declínio demográfico, tem-se assumido como um dos principais óbices à revitalização económica e social da terceira economia mundial, cuja insularidade e conservadorismo apenas se tenderá a intensificar nas próximas décadas.
No ano passado, os dados apontam para 36,27 milhões de pessoas com idade superior a 65 anos (+60.000 do que em 2020 ). Isto corresponde a 29,1% da população, a percentagem mais elevada de todo o mundo. O aumento tem-se registado desde que dados equiparáveis começaram a ser coligidos, em 1950. Mas se ao início tal refletiu os progressos significativos em matéria de cuidados de saúde e condições de vida, os valores são agora olhados como um problema em agravamento.
Desagregando por sexo, regista-se clara preponderância das mulheres, com 20,5M consideradas idosas ( 32% da população feminina), enquanto para os homens os números ficam nos 15,7M ( 26% da população masculina).
Mas engane-se quem temer tratar-se meramente de uma pressão para a segurança social e pensões: da população com mais de 65 anos, 25% permanecem profissional e fiscalmente ativos; entre os 65 e 69 anos, mais de metade ( 50,3%) estão ainda empregados. Em termos absolutos, trata-se de uma mão-de-obra estimada em 9M de trabalhadores, quase a população total portuguesa.
Indo mais além, o Japão é dos poucos Estados onde faz sentido falar da população com mais de 75 anos, que agora atingiu 15% do total, ascendendo a 19,37M de pessoas. O país com a mais elevada esperança média de vida do mundo, onde não é incomum depararmo-nos com centenários.
Se estes números não bastassem em convidar a uma reflexão sobre o futuro das nossas sociedades como economias avançadas, as estimativas para os anos vindouros são ainda mais graves. Segundo as mesmas autoridades japonesas, os idosos representarão 35,5% da população em 2040. Com a baixíssima e preocupante taxa de fertilidade de 1,2 filhos/família e contínuos aumentos da esperança de vida, falamos de uma das maiores mudanças possíveis de paradigma de toda uma sociedade.
Mas, como em todas as crises, mesmo que alheias, há uma oportunidade. O Japão está na vanguarda do debate sobre o envelhecimento demográfico e políticas sociais e económicas para mitigar (porque já não para reverter) os seus efeitos. Portugal, como outros países europeus, sofre semelhantes pressões populacionais, embora com um desfasamento de 10-15 anos face aos índices nipónicos, mas que se agrava graças a uma migração das gerações jovens a que o Japão escapa. Muito proveito haveria e há, portanto, em analisarmos o país do sol nascente, também nesta área das políticas públicas. Aqui vos darei conta.
P.s. para não ferir suscetibilidades o título deste artigo baseia-se no oscarizado filme dos irmãos Cohen “No Country for Old Men”.

Pode ler a opinião na edição impressa e digital do DIÁRIO AS BEIRAS

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