Jorge Fernandes: “A Telma é a mentora disto tudo”

DR/Pedro Ramos

Primeiro uma carta de atletas, depois veio o Comité Olímpico Português (COP) e agora o Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) anunciou uma auditoria… sente-se pressionado a demitir-se?
Não, nunca senti essa pressão. Aliás, por parte de quem é do judo e de quem me elegeu sinto uma total confiança. A demonstrar isso, a última Assembleia Geral, para aprovar o orçamento para 2023, foi das mais concorridas de sempre, julgo que como manifestação de apoio.
Houve outros mandatos em que nem chegaram a conseguir aprovar orçamentos…

Nas redes sociais têm-se sucedido as críticas… isso incomoda-o?
Não incomoda nada. Não são pessoas do judo e falam do que não sabem.

Mas sente que há alguma campanha para denegrir a sua imagem?
Julgo que não. Mas há pessoas que preferem vir para as redes sociais em vez de discutir os problemas.
O que tem falhado é a capacidade de quem está do outro lado se sentar à mesa para discutir os problemas.

Ou seja, a haver falta de abertura para o diálogo não é da sua parte?
Não! Eu acompanho os estágios e as provas todas. Faço questão de estar em todas, almoçar e jantar com os atletas.
Talvez o meu erro seja estar tão próximo como tenho estado. Mas também não vou mudar.
A única vez que (os atletas que assinaram a carta) me pediram uma reunião eu acedi imediatamente e reunimos.
A meio disseram-me que estavam a gravar, sem a minha autorização, eu parei a reunião e falei com os advogados. E logo na semana seguinte saiu a tal carta, que é um disparate.

Cinco dos sete atletas que assinaram a carta são do Benfica. Acha que é uma coincidência?
Desses, a Catarina (Costa) já se demarcou dessa carta e se retratou. Restam os cinco atletas do Benfica e a Patrícia Sampaio, do Gualdim de Pais.
Não sei o que os motiva. O que sei é que até essa reunião estava tudo bem. Diziam que eu era o melhor, elogiavam-me… De repente, após parar a reunião e dizer que os punha em tribunal, começou este inferno.
Eu julgo que a carta foi um contra-ataque por eu dizer que os punha em tribunal. Mas é feita de tal maneira que não tem uma única verdade…

Quer explicar?
Dizem que pediram várias vezes para reunir comigo, mas é mentira. Desafio qualquer um a demonstrar que não os recebi para uma reunião.
Depois dizem que obriguei a Catarina Costa a ir para um estágio em Alicante de carro, em vez de avião, numa viagem de nove horas, mas foi o João Neto, o treinador, que pediu para pagar as despesas da viagem de carro porque preferia isso para fugir às confusões dos aeroportos. Ambos já desmentiram isso.
Depois disseram que impedi o Anri (Egutidze) de participar numa prova sem ouvir os médicos. É mentira. O próprio médico me ligou a solidarizar-se e a dizer que falaria sobre isso quando fosse preciso. A opinião dele era que, enquanto não tivéssemos o resultado de uma endoscopia urgente que tinha sido pedida ao atleta, este não devia sair do país.
Não posso admitir a ninguém que me chame de racista e xenófobo e exijo que mo provem. Basta olhar para a minha equipa técnica.
Dizer que eu proibi o Anri de falar georgiano é outra mentira sem explicação. Pedi-lhe para não responder em georgiano quando o chamavam à atenção, porque isso incomodava os treinadores. Não o proibi. Aliás, foi a treinadora que me pediu para falar com ele.
Entretanto o Benfica veio em defesa dos atletas e de Ana Hormigo e apontou-lhe o dedo a si. O que fez para irritar o Benfica?
Não sinto grande hostilidade por parte desse clube. É um comunicado normal, em defesa dos seus. Em relação ao comunicado não tenho nada a dizer.
Em relação à Ana Hormigo, essa sim, tenho…

…então?
Uma pessoa que escreve o que escreveu teria de se demitir primeiro. Ela era a treinadora da seleção e do Benfica e penso que também tem alguma culpa nisto. Porque não aconselhou os atletas a virem falar comigo? Disse sempre que não sabia de nada até sair a carta, mas, no dia em fui reunir com o Secretário de Estado do Desporto e com o presidente do COP, lembrou-se de fazer o comunicado dela.
Os atletas tinham algum problema em falar comigo? Então a Telma Monteiro vinha-me pedir para fazer festas com álcool no hotel para não ter de sair e tem problemas em vir falar comigo?
A treinadora, tendo conhecimento disto tudo, porque é que nunca nos alertou e deixou chegar a este ponto?

Quando chegou à federação foi buscar para selecionadores Go Tsunoda e Ana Hormigo… Tsunoda saiu no Mundial do Japão, era, na altura, treinador da Telma Monteiro. Depois deste tempo todo surge agora um problema com a Ana Hormigo, que também é treinadora de Telma Monteiro. Há alguma ligação?
O que acontece é que há uma pessoa por trás disto tudo, que é a Telma Monteiro. Eu não tenho medo de dizer os nomes.
O Go Tsunoda era apenas treinador da Telma Monteiro, mas queria estar com outros atletas, como a Bárbara Timo, o Anri, o Jorge Fonseca, mandava-lhes mensagens e a Telma não queria. Ele desobedeceu e foi-lhe dito que não poderia orientar mais ninguém no Campeonato do Mundo a não ser a Telma Monteiro, mas desobedeceu e foi despedido.
Relativamente à Ana Hormigo também não consigo explicar. Antes dela ir para o Benfica, curiosamente até indicada por mim, estava tudo bem…

Voltando à Telma Monteiro. Disse há dias num jornal que “a guerra é com a Telma”. Provavelmente a questão toma proporções maiores devido ao estatuto da atleta…
A Telma é das melhores atletas do mundo, isso nunca esteve em causa. Mas ela é a mentora disto tudo. O que a move nisto não lhe sei explicar. Mas é um problema dela. Outros vão por arrastamento.

Mas isto vem do Mundial do Japão?
Não, depois disso, estava tudo bem. Pediu desculpa e o problema ficou resolvido. Esse mundial foi em agosto de 2019. Isto foi há três meses…
Até aqui nada me levava a pensar numa coisa destas.

Em Abu Dhabi foi o Marco Morais a orientar a seleção. É uma solução para continuar?
Para já continua o Marco. Vai para (o Grand Slam de) Baku.
No meio disto tudo, a única certeza que tenho é que a Ana Hormigo não trabalhará mais comigo na Federação. Neste momento está a ser tratado pelos advogados.

A sua liderança marcou um salto qualitativo e quantitativo no medalheiro português: cinco medalhas em campeonatos do mundo – dois ouros, uma prata e dois bronzes – e um bronze e um 5.º lugar nos Jogos Olímpicos… Aparentemente nem tudo tem corrido mal…
Os melhores resultados alcançados na história do judo foram nestes seis anos, sim.

E não estamos só a falar de títulos…
Não. Todos os presidentes e candidatos, antes de mim, falavam no objetivo de chegar aos 20 mil (praticantes) e nunca se chegou sequer aos 13 mil.
Quando cheguei tínhamos 11 mil e tal e estávamos a perder 300 e tal atletas por ano.
Comigo temos crescido a um ritmo de mais de mil por ano. Em 2019 chegámos aos 15.500, houve uma quebra na pandemia, e neste momento já ultrapassámos os 14 mil e tal atletas.
Mas, na história do judo nunca tínhamos tido um campeão do mundo e agora tivemos um bi- -campeão.
De vez em quando havia um atleta que se evidenciava e conseguia uma medalha. Durante um ou dois ciclos vivíamos de um atleta.
Em 2021, que foi ano de Jogos Olímpicos, Mundial e Campeonato da Europa, tivemos sete atletas a disputar medalhas. Seis trouxeram medalhas e um ficou em 5.º. Quantos países se podem gabar disso?
Antes de mim, vivíamos de um atleta fora de série. No último Grand Slam tivemos duas medalhas e um 5.º lugar.
No Festival Olímpico da Juventude, tivemos seis medalhas na história do judo português. Metade delas foram sob a minha presidência…
Mas também podia falar da arbitragem. Temos vários a arbitrar provas ao mais alto nível.
Podia perguntar quando é que Portugal organizou tantas provas ao mais alto nível. Isto tem a ver com a credibilidade da modalidade…
Organizámos, desde sempre, dois campeonatos da Europa de seniores. Um deles foi comigo.
Vamos ter, pela primeira vez na história, um Campeonato da Europa de Cadetes… por acaso em Coimbra, em 2023. Vamos ter um Campeonato do Mundo de Juniores, também em Coimbra, que acontece pela segunda vez na história.
Temos taças da Europa de cadetes, juniores e seniores. Por acaso também em Coimbra.
Tivemos o Olympic Training Camp, este ano, pela primeira vez, em Coimbra. Nunca se conseguiu trazer isto para Portugal.
Nunca se tinha conseguido um Grand Prix para Portugal e nós conseguimo-lo.

Quando vem o Grand Slam?
Só não veio agora porque não quisemos. Foi-nos perguntado pelo presidente da FIJ (Federação Internacional de Judo) se não queríamos antes um Grand Slam. Mas achamos que é preferível ter mais atletas portugueses a disputar medalhas num Grand Prix do que subir o nível para um Grand Slam e ter menos atletas nos lugares de cima.

Mas pensa organizar algum?
Vamos fazer! Posso deixar a garantia de que não saio da FPJ antes de organizarmos um Grand Slam.
Nunca fizemos tantos eventos internacionais como fazemos hoje. É preciso trabalhar e ter credibilidade na tutela do judo.

Depois dos resultados em Tóquio, quais são as suas metas para Paris?
Penso que teremos três ou quatro atletas a disputar medalhas, incluindo a de ouro.
Nos últimos Jogos Olímpicos fizemos história com um 3.º e um 5.º lugar, para não falar dos quatro atletas que ficaram em 9.º. Tivemos seis atletas no top-10. Tantos quantos os que alguma vez foram aos Jogos Olímpicos.
Deste vez não vou dizer se temos nove ou 10 atletas, mas, garantidamente, vamos ter vários atletas a lutar por medalhas e, seguramente, vamos bater novo recorde em número de medalhas.

Há uns anos falava-se de Coimbra como a “capital” do judo. Hoje ninguém duvida disso. A sua tomada de posse, em 2017, foi em Coimbra. Conseguiu trazer para Coimbra várias provas – como o Mundial de Juniores e o Campeonato da Europa de Cadetes, agendados para o próximo ano – e fez de Cernache a casa das seleções. Isto não é mais uma arma de arremesso para quem lhe quer apontar o dedo?
Claro que uma das razões desta polémica é que as pessoas não querem vir para Coimbra. A Telma Monteiro chegou a pedir a outros atletas pera virem falar comigo para fazermos apenas um treino por mês em Coimbra e os restantes serem em Lisboa.
Mas, em Coimbra, temos as melhores condições.

Foi, aliás, um dos objetivos para cumprir neste mandato, criar uma Casa do Judo…
Sim, e repare, na própria carta os atletas dizem que a solução de treinar em Coimbra tinha sido boa durante a pandemia, mas que, agora, já se estava a tornar cansativa emocionalmente.
Coimbra tem acessos facílimos, permite que venham atletas de todo o país.
Não é nada contra Lisboa. Não tem nada a ver com o facto de ser de Coimbra. Tem a ver com o preço que pagamos e com o apoio que temos em Coimbra.

Depois de todos estes sucessos, mas também deste processo desgastante, se soubesse o que sabe hoje, voltaria a candidatar-se?
Garantidamente não o faria se soubesse o que sei hoje. Mas também costumo dizer que não conheço ninguém que seja mais teimoso que eu. Ou, como está agora na moda, resiliente.
Estou farto e cansado, mas vou estar aqui até ao final do mandato e, se calhar, até farei outro.
Estes problemas dão-me força e motivação para mostrar que estamos no caminho certo.

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