Opinião: Três pontos e um desafio

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1- Ao contrário do que se possa pensar, a falta de professores não é um exclusivo de Portugal. Um pouco por toda a Europa, governos, associações sindicais e de pais, alunos (sobretudo os alunos) se debatem com esta praga. As razões não são únicas: perda de prestígio social da profissão, baixos salários, turmas difíceis, clima de agressividade em muitos estabelecimentos de ensino, cargas curriculares elevadas, falta de outros profissionais que acompanhem os estudantes em áreas como a psicologia ou o acompanhamento social. Entre nós, na atual abertura dos cursos do ensino superior, as vagas para a formação de professores foram praticamente todas preenchidas, o que é um ótimo sintoma. Urge que o governo (este ou outro) faça o seu trabalho de casa e acompanhe este movimento de aparente interesse pela profissão e crie condições para fixar em toda a rede escolar o número necessário de profissionais. Assim seja!
2- Mas, para já e nos anos mais próximos têm de ser encontradas soluções que não deixem milhares de alunos a gozarem de muitos “feriados”. Illo tempore, muitos docentes iniciaram o seu trabalho possuindo o bacharelato. Mais tarde concluíram a licenciatura, fizeram as cinco disciplinas de ciências pedagógicas que eram obrigatórias para poderem entrar no estágio de dois ou de um ano, conforme a época em que o realizaram.
Tanto quanto se pode saber, os estágios pedagógicos eram realizados ao fim de vários anos de exercício da profissão e não há notícia de que tenham os alunos ficado menos bem preparados por esse facto. Eis porque é tempo de chamar à docência pessoas com habilitação académica adequada às disciplinas que irão dar, garantindo que o estágio pedagógico com qualidade virá depois, mas num curto lapso de tempo. Esta forma de encarar o momento em que a falta de professores em Portugal é notória não é mero revivalismo da minha parte, é tão-só a convicção de que deve ser esse o caminho a seguir nos tempos que correm.
3- E aqui chegamos nós ao magno problema dos concursos para colocação de professores. O concurso nacional foi uma peça essencial para terminar com algum amiguismo que os diretores usavam em tempos que já vão longe. O próprio facto de ter aumentado a escolaridade obrigatória, esticada até ao 12º ano, representou um aumento significativo de alunos no sistema, com as escolas consequentemente cheias e a natural necessidade de professores. Era, pois, possível que as deslocações de docentes fossem relativamente curtas e muito ficassem perto de casa.
Não servindo de exemplo o meu caso, as deslocações mais longas que tive de fazer foram para a Marinha Grande( 84 quilómetro de ida e outros tantos de volta) e para Estarreja( 80 quilómetros de ida e outros tantos de volta), sempre sem autoestradas que só se vislumbravam ainda. Entretanto os anos correram, diminuiu a natalidade, baixaram os números de alunos nas escolas, as turmas diminuíram, são precisos menos professores, o que atira cada um deles para longe, muito longe da residência – que assim dita o concurso nacional.
Parece haver uma única alternativa a esta situação, embora ela desagrade a alguns: concursos regionais, eventualmente por CIM ou outra estrutura de descentralização territorial, no mínimo de três em três anos de modo a ir estabilizando o corpo docente através da figura da recondução e a abrir vagas de quadro para que seja possível fixar professores cuja avaliação se revele positiva. Eu sei que se levantarão algumas (muitas) restrições a esta ideia. Mas não podemos todos os anos dizer que não há professores, porque muitos entendem que residindo em Monção e colocados em Vila Real de Santo António não têm condições materiais e familiares para assumirem tal sacrifício, que será disso que se trata.
4- Haja, pois, coragem de assumir isto, juntando-lhe a necessidade de reorganizar os grupos de recrutamento do básico e do secundário, que como estão representam um enorme desconserto. Mãos à obra!

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