Opinião – Os pimentos desalinhados de Pretória

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Ao contrário da Europa, onde por estes dias todos parecem viver em esteróides e a salada de lentilhas, o que mais preocupa os sul-africanos é o encarecimento desalinhado dos seus pimentos!
Em apenas uma semana, o preço do pimento vermelho disparou mais de 40% na África do Sul, que é a economia mais desenvolvida no continente. Alguns produtores apontaram o dedo às nuvens para justificar o drástico aumento para 20.05 rands/kg (1,16 euros).
Aparentemente, como estão a demorar mais tempo para colorir devido às alterações climáticas, os pimentos sul-africanos “estão a ficar maiores”. E não só. Estão a aparecer também com maior frequência tamanhos “médios” e “extra-grandes” nas colheitas, segundo os produtores sul-africanos.
Neste país, há mais de 40 mil grandes fazendas agrícolas comerciais. Na província de Gauteng, por exemplo, com mais de 16 milhões de habitantes e onde se situa Joanesburgo, a capital económica, a agricultura comercial contribuiu 32,2 mil milhões de rands (cerca de 1,9 mil milhões de euros) para o PIB, em 2020, sendo o 6º maior mercado agrícola do país, e o maior produtor de pimentos nacional com mais de 6.400 toneladas.
O atual contexto de crise instalado no hemisfério norte, que agora dificulta também a exportação de citrinos sul-africanos para a UE, é ainda apontado como causa do encarecimento dos custos de importação, nomeadamente fertilizantes, combustíveis e de outros insumos usados na produção de pimentos.
Ao contrário da Europa, a África do Sul tem vindo a apelar à paz na Ucrânia e acusa os líderes europeus de “bullying” e “paternalismo”, afirmando que não tem de decidir entre os EUA, a Europa, a China ou a Rússia, e muito menos de aceitar “ajudas financeiras ao desenvolvimento” em troca de uma nova aliança, sublinhando que a invasão russa da Ucrânia, que não é país membro da UE, deve ser resolvida e mediada pelas Nações Unidas.
A côrte a Pretória tem sido frequente ultimamente, mas os sul-africanos não se esquecem da discriminação e isolamento a que foram votados pela Europa, incluindo Portugal, quando proibiram todos os voos da África do Sul por os cientistas sul-africanos terem alertado a comunidade internacional para as variantes do vírus que causa a covid-19, enquanto os europeus infetados viajavam sem restrições dentro da UE e para fora dela.
Neste quadro de “desalinhamento”, a Europa e os Estados Unidos certamente que estarão cientes de que a África do Sul é também uma potência nuclear, sendo um dos maiores produtores de urânio e carvão do Mundo, entre outros minérios, e que encontrará uma solução interna para a valorização dos seus pimentos vermelhos, a exemplo do que fez com o “apartheid”.

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