Opinião: “Não chamarás nomes”

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Chamar nomes é uma coisa mais ou menos feia. Há muitas maneiras de chamar nomes sem os pronunciar de forma direta. Será que fulano sabe mesmo quem é o pai? Não há tribunal algum que ouse a condenação pela benevolência da dúvida. Ou dizer desse mesmo fulano que não consegue assentar o chapéu na cabeça. Isto pode significar muitas coisas, não necessariamente aquela que todos achamos que quer dizer.
Lembro-me de uma pessoa minha amiga que, para caracterizar outra de aspeto malparecido, disse assim: “se representasse um ato de Gil Vicente, calhava-lhe o papel do diabo”. Foi a crítica mais poética e mais sincera que já ouvi.
Há dias, quando contornava a rotunda de uma das entradas de Coimbra, dei de caras com um outdoor de uma coisa que não sei se é um partido ou a reencarnação de Salazar. Ali, naquele sítio, onde já antes a mesma trupe irradiara a luz profética que acolhe no seio das suas urnas o voto dos “portugueses de bem”, o outdoor mostrava gente que não tem nada a ver com este pseudopartido. Ao lado da figurinha que costuma intitular-se ora “a voz dos portugueses de bem”, ora “o presidente dos portugueses de bem”, o cartaz expunha abusivamente o primeiro-ministro e alguns dos seus ministros num contexto em que certamente os respetivos cônjuges rejeitariam colocar num álbum de família. Não se trata de um outdoor satírico, que muitas vezes dá graça à política. Não. Este é um outdoor de afrontamento fácil e grotesco, desinspirado, que precisa de falar dos outros para sobreviver.
Eu não vim aqui chamar nomes a ninguém, até porque chamar nomes é uma coisa mais ou menos feia. Mas muitas vezes vem-me à lembrança aquelas camisolas que têm inscrito “Cala-te ó facho”. Não sei porquê. Mas vem.
Depois lembrei-te que, naquele sítio, o mesmo pseudopartido prometeu fazer “o sistema tremer”. Julgo que conseguiu. Dou-lhe os meus sinceros parabéns. Eu, quando tenho de dizer bem, digo bem! Pôs a tremer as cadeiras da sua sede com os embrulhanços e as demissões dos seus membros, depois o Parlamento, com ameaças de pancadaria, entre outras pérolas aplaudidas pela gigante das variedades televisivas Maria Vieira.
Noutro outdoor, reclamava: “Chega de familiares” na política. Numa entrevista, o “coiso” disse coisas sem se rir (desculpem, mas não me lembro como se chama esse grande guru cheguista que parece ostracizar ciganos, mandou uma deputada negra ir para a sua terra, e terá pouca simpatia por outros que no seu cimento ideológico não são gente de bem). O “coiso” mostrou-se muito irritado com as relações familiares nas funções políticas. E bem! Talvez não contasse é que a imprensa fosse descobrir que contratou o pai de uma deputada do seu grupo parlamentar para assessorar… justamente o mesmo grupo parlamentar. O que interessa é carregar umas ideias nos outdoors e fazer uns golpes mediáticos, porque o povo é desinformado e tem ouvido fácil.
“Sinto que Deus me deu esta missão”, disse o “coiso”, justificando a sua campanha. Ele pode dizer tagarelices destas, porque sabe que Deus não lhe moverá uma ação em tribunal. No fundo, abusa de quem não deve. Nem sequer Hitler o acusará de imitação pelo facto de o “coiso” se ter ajoelhado de mão erguida fazendo aquilo que pareceu ser uma saudação nazi. Já antes, num comício do seu pseudopartido, no Porto, houve quem fizesse a mesma saudação no momento em que se ouvia o hino nacional.
Mas como dizia, chamar nomes é uma coisa mais ou menos feia. Por isso não lhe chamarei pulha, nem safardana, nem batoteiro, nem impostor, nem aldabrão. Não. Não chamarei nada disso. Nem quero que me salte à lembrança aquelas camisolas com o letreiro “Cala-te ó facho”.

Pode ler a opinião na edição impressa e digital do DIÁRIO AS BEIRAS

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