Opinião: Nagasáqui

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Às 11:02 do dia 9 de agosto de 1945, a bomba “Fat Man” detonou quinhentos metros acima de um campo de ténis, no vale de Urakami, em Nagasáqui. Morreram entre quarenta a oitenta mil japoneses, cerca de metade aquando da explosão inicial e da onda de choque, os restantes durante os meses e anos subsequentes, sob os efeitos de queimaduras, radiação e feridas. Seis dias depois, o Imperador Hirohito anunciava numa mensagem radiofónica a rendição incondicional do seu país aos Aliados.
O mundo mudou, Nagasáqui também, mas o legado dos eventos de agosto de 1945 perduram na memória física e cultural da cidade, que tive a oportunidade de visitar recentemente.
Todos os anos, a 9 de agosto, realiza-se a Cerimónia Memorial no Parque da Paz de Nagasáqui, construído em memória das vítimas no hipocentro da explosão, marcado por um monólito de pedra negra. No extremo norte do parque encontra-se a inesquecível Estátua da Paz, de dez metros de altura, e em frente à qual o Presidente da Câmara de Nagasaki faz a sua Declaração de Paz ao Mundo. Criada pelo escultor Seibo Kitamura, a mão direita aponta para a ameaça das armas nucleares e a esquerda, estendida, simboliza a paz eterna. Deixei, no mesmo dia, um ramo de flores e, em nome de Portugal, prestei sentida homenagem a todas as vítimas. A mensagem que a cerimónia nos deixa anualmente é ainda mais pertinente nos dias de hoje: “para que nenhum outro lugar nesta Terra se torne o local de uma terceira bomba atómica”. Mensagem que, apesar das tensões que vivemos, foi reafirmada pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, detentores de arsenais nucleares, em Janeiro deste ano, quando afirmaram que uma guerra nuclear nunca poderá ser ganha e nunca deverá ter lugar. Os japoneses, mais que ninguém, conhecem as terríveis consequências.
Termino num ponto mais positivo, uma marca notável, no meio do especial simbolismo destas comemorações, do passado, presente e futuro da nossa ligação ao Japão; prova de que, tão longe, aqui temos um lugar especial e – ouso dizer – quase ubíquo e intemporal. Em 1978, a cidade de Nagasáqui estabeleceu uma “Zona de Símbolos de Paz” em dois lados deste parque memorial, convidando doações de monumentos de países de todo o mundo. O primeiro foi português: “Relief of Friendship” foi doado pela cidade do Porto, cidade irmã de Nagasáqui, logo em novembro do mesmo ano. Ainda no parque se encontra o brasão da Invicta, num gesto natural de amizade fraternal, como se encontra ainda, na memória nacional e coletiva japonesa, a esfera armilar portuguesa como símbolo de amizade, paz e cooperação entre os povos. Para que nunca mais uma tragédia semelhante tenha lugar. ( 17 de agosto)

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