Opinião: Educar para a subsidiodependência

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O primeiro grande objetivo da educação é formar pessoas livres, autónomas, independentes, com espírito crítico, competentes para gerir a sua vida e para se integrarem solidariamente no meio e na sociedade em que vivem.

Muita gente interiorizou a ideia de que as escolas servem para transmitir conhecimentos. O próprio ministério funciona nesta onda, enumera os conhecimentos pré-definidos nos programas oficiais e controla a sua aprendizagem através dos exames. Tudo o que não entra nos exames é “palha”, não interessa. Os professores e os alunos convergem neste ponto: só se dá e só se estuda o que sai nos exames.
A Unesco definiu os quatro pilares da educação: “aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a viver com os outros”. Os exames privilegiam o primeiro nível, o dos conhecimentos. O essencial fica de fora: formar pessoas autónomas e independentes para gerir a sua vida e para se integrarem solidariamente no meio e na sociedade em que vivem.
Os conhecimentos não são importantes? Claro que são, são a base da pirâmide que suporta a aquisição de competências, atitudes e valores fundamentais para uma relação saudável, cooperante e solidária com o universo das pessoas que nos rodeiam. Os conhecimentos são fundamentais, mas são apenas um meio para atingir o objetivo primordial, que é formar as pessoas. Se esse objetivo não for atingido de pouco servem os conhecimentos. As pessoas bem formadas aprendem o caminho, têm um norte. Os conhecimentos tanto podem estar ao serviço do bem como do mal. Aprender a construir armas letais capazes de destruir a humanidade é um conhecimento que arrepia.
Esta orientação da escola para os conhecimentos, para a memória, para as rotinas, retirando o foco da formação das pessoas, do seu equilíbrio, da sua capacidade crítica, da iniciativa, do agir e fazer com os outros, das práticas concretas e da sua avaliação em campo neutro, sem o stress pontual da situação de exame e sem a ameaça de fracasso e de exclusão, tudo isto tem consequências.
Será mesmo necessário submeter as crianças e os jovens a provas duras, difíceis, de resistência, de incerteza, de stress, de tortura? Está provado, as crianças e jovens mais felizes na escola não são os mais empenhados, os que mais lutam e têm os melhores resultados. Os níveis de suicídio nesta faixa etária são mais elevados nos sistemas mais competitivos. É preciso retirar da escola o stress, o desespero, o sentimento de incapacidade e de incerteza. Todos gostamos de ter um ambiente de trabalho tranquilo e sem ansiedade. Mas impedimos muitos alunos de o terem. Avaliar não deve ser excomungar. Deveria ser o contrário: aproximar, acompanhar, orientar.
Nos países nórdicos e no Reino Unido os jovens têm uma consciência clara das suas responsabilidades ao atingir a maioridade. Aos 18 anos entram na universidade ou em cursos profissionais e assumem que os pais não têm mais obrigação de os sustentar nem de custear os seus estudos. A bolsa de estudos nem sempre cobre a totalidade das despesas, mas têm toda a disponibilidade para trabalhar o número de horas necessário para equilibrar a balança. Tive oportunidade de conhecer pessoalmente jovens dos referidos países com 18 anos, na transição do secundário para o superior e registei a forma determinada como assumiam o estatuto de maior emancipado e autónomo, com a responsabilidade de governar a sua vida sem ajudas. Quando chega o momento de o passarinho sair do ninho, é bom que voe com as suas próprias asas e se faça à vida.
Em Portugal não faltarão casos idênticos. Mas somos um dos países com números mais elevados de jovens adultos que permanecem na residência e na dependência dos pais muito para além da sua carreira académica. Poderia citar vários casos na esfera da família alargada e muitos mais no espaço da minha área residencial. Há situações dramáticas de pais reformados e angustiados na iminência de partir deixando atrás de si filhos altamente qualificados, mas incapazes de lutarem pela vida e pela sua sobrevivência.
Haverá muitos fatores que podem contribuir para este fenómeno que alguns designam como a geração nem-nem. Fatores genéticos, sociais, familiares, mas a escola, não só não fica fora deste quadro, como o potencia. A escola favorece a dependência, a inação, a passividade. O atual modelo de escola, criado há 200 anos, atribui ao professor o papel principal e ao aluno o de mero figurante passivo. O detentor do saber fala, expõe, explica; os alunos ouvem. No essencial, e apesar de todos os meios hoje disponíveis para uma inversão de papéis, esta passividade mantém-se e não favorece a iniciativa das crianças e jovens. Pelo contrário, é a passividade que contagia muitos alunos.
Comparando a educação com a saúde, verificamos que a medicina tem hoje meios de avaliação e de diagnóstico rigorosos disponíveis na hora, permitindo aos profissionais da saúde consultar a história clínica documentada com análises, radiografias, ecografias, cintigramas e toda a variedade de exames a todas as partes do corpo. Na educação continuamos ainda na fase em que a medicina tratava o carbúnculo com sanguessugas, a tosse cavernosa com xaropes e auscultava os pulmões por um canudo. Quando a educação atingir o estádio da saúde, os atuais exames serão vistos como as sanguessugas medicinais. Há décadas de atraso na educação em relação à medicina.
O travão não está nas escolas nem nos professores. Está no ME e no governo, que não conseguem ver a educação como o motor da prosperidade. O desprezo dos professores e a falta de autonomia das escolas inserem-se na lógica dos países dependentes. A matriz da organização política e social do Estado é a subsidiodependência. É a política de mão estendida dos países pobres. Interna e externamente.

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