Opinião: Coimbra e o MetroBUS: 5 questões essenciais

Posted by

Na semana passada, na celebração da Semana Europeia da Mobilidade, foi assinada a consignação da empreitada de construção do troço do MetroBUS entre a zona da Portagem e a estação de Coimbra-B. Idealmente, a Metro Mondego – sociedade anónima detida 53% pelo Estado central – já teria implementado um sistema de metro ligeiro de superfície, em carris, entre Serpins (Lousã) e Coimbra, passando pelo município de Miranda do Corvo, no início dos anos 2000.
Foram precisos mais de vinte anos e uma alteração profunda ao projeto para que este sistema de mobilidade se comece a tornar palpável. A versão atual, apresentada pelo Governo Central em 2017 (uns poucos meses antes das eleições autárquicas), trocou a solução ferroviária por um sistema rodoviário, renomeado como MetroBUS, e efetuou breves “cortes” no traçado/cobertura do serviço, o que resultou numa diminuição significativa do investimento.
Antes de mais, note-se que as obras são lançadas, não pela Metro Mondego nem pelos Municípios envolvidos, mas sim pela Infraestruturas de Portugal (IP) – uma empresa do Estado, tutelada pelos Ministérios das Infraestruturas e das Finanças. É também fundamental ter em mente que este projeto procura servir a população com o melhor sistema de transportes possível (um objetivo operacional) mas tem também objetivos estratégicos, de promoção do ordenamento do território, da regeneração urbana e da competitividade territorial. Para além disso, projetos deste tipo têm de ser analisados à luz de vários critérios, como a melhoria da acessibilidade, a responsabilidade ambiental, o desenvolvimento sócio-económico, entre outros. Não há, portanto, uma solução única e perfeita; mas sim várias soluções de compromisso.
Atualmente em fase de plena execução, as obras são cada vez mais visíveis. As perturbações começam também a ser sentidas de forma mais direta. E, com elas, surgem novas questões e contestação. De seguida, analiso o projeto segundo cinco questões essenciais.
1. Não se deveria manter a solução ferroviária? O sistema MetroBUS baseia-se em veículos rodoviários, articulados, elétricos, e com guiamento ótico. Não são meros autocarros, é todo um novo sistema, avançado e moderno. Trata-se de uma solução semelhante a um metro ligeiro no que diz respeito ao sistema de energia, de comunicações, e de segurança. No entanto, nos troços interurbanos, deverá ter uma velocidade de circulação um pouco inferior à solução ferroviária. Nesta fase do projeto, já com obras em execução, seria viável tentar forçar uma solução ferroviária?
2. Como fazer a ligação entre Coimbra-B e o centro da cidade? A solução MetroBUS prevê uma ligação ao centro, com duas paragens nas imediações da estação de Coimbra-A. As paragens Aeminium e Loja do Cidadão irão funcionar em complementaridade, neste local em que o traçado faz um T, devido ao entroncamento da Linha do Hospital na Linha da Lousã. Dos vários argumentos de quem defende a manutenção do serviço ferroviário, o mais pertinente é que o comboio atual tem maior capacidade ( 250 lugares) que o futuro sistema MetroBUS ( 150 lugares). Este facto tem de ser lido em conjunto com outras vertentes. Quantos dos passageiros que chegam a Coimbra-B têm o seu destino final na Baixa e quantos se deslocam (ou poderão vir a deslocar-se) para outros locais da cidade? A atual linha ferroviária termina em Coimbra-A, servindo bem quem se desloca para a Baixa mas obrigando todos os restantes passageiros a um transbordo. O MetroBUS permitirá ligar diretamente Coimbra-B à zona da Universidade e ao Hospital, sem transbordos, com uma frequência de 5 minutos na hora de ponta da manhã. O que será preferível: um transbordo em Coimbra-A ou uma viagem direta de Coimbra-B até ao CHUC? Para além disso, enquanto a linha ferroviária é uma barreira intransponível, o canal de circulação do MetroBUS poderá ser facilmente atravessado, a pé, abrindo definitivamente a Baixinha à convivência com o Rio Mondego. Que opção terá mais potencial de alavancar a regeneração urbana da Baixa?
3. A estação de Coimbra-B conseguirá albergar comboios, MetroBUS, alta velocidade (quando e se a houver) e outros modos? A reformulação prevista para Coimbra-B permite acomodar o MetroBUS e inclui a construção de uma passagem inferior para acesso às linhas ferroviárias; não é uma verdadeira estação intermodal e poderá não permitir receber a alta velocidade. Por “pressão” da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), a IP promoveu a revisão do plano de urbanização da área envolvente à estação de Coimbra-B, com o objetivo de ali implantar uma verdadeira estação intermodal e de efetuar um arranjo urbanístico nesta “porta de entrada” da cidade. Será que Coimbra necessita mesmo de uma estação intermodal ou poderá ficar a ver os comboios passar?
4. E o MetroBUS não serve a Universidade? O projeto inicial previa uma paragem um pouco abaixo das escadas monumentais, seguindo depois pela “rotunda do Papa” e atravessando o Jardim da Sereia até Celas. O projeto atual procura servir a Universidade com uma paragem junto ao TAGV, circundando depois a Praça da República, e subindo a Rua Lourenço de Almeida Azevedo em direção a Celas. Assim, foi eliminado um “laço” do traçado, que apresentava alguma complexidade de implementação, e reduzidos custos. Por outro, a zona da Alta e da Universidade ficará menos bem servida. Qual a melhor opção?
5. O MetroBUS vai destruir o património arbóreo de Coimbra? Por várias razões, sendo a principal uma questão de (falta de) espaço, o traçado do MetroBUS implica mudanças nos arruamentos e o abate de árvores. Note-se que o MetroBUS tem duas vias, uma em cada sentido, enquanto que o antigo canal ferroviário corresponde a apenas uma via pois a automotora circulava para a frente e para trás. O abate recente dos derradeiros plátanos da Av. Emídio Navarro causou uma compreensível e significativa agitação social. O projeto sempre previu a substituição de cada árvore abatida por outra. Mas uma árvore jovem não substitui plátanos maduros e volumosos. Por este motivo, a Metro Mondego desenvolveu, em conjunto com a CMC, um Plano de Reforço da Estrutura Arbórea que prevê então a plantação de 3 árvores por cada uma abatida. Qual a melhor alternativa?
Termino, lançando um desafio ao leitor: se tivesse poder de decisão e pudesse resolver uma, mas apenas uma, das questões acima, qual escolheria?

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado.

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.