Em Alvaiázere esperam-se certezas para quem perdeu a casa nos incêndios

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Emília Marques viu a casa onde nasceu, cresceu e casou destruída pelo incêndio que percorreu Alvaiázere há um mês. Com 99 anos, espera chegar ao centenário com um vislumbre de reconstrução, mas ainda não recebeu qualquer certeza de apoio.

Apoiada por uma bengala e ainda com um curativo na perna, fruto da aflição e caos do fogo que chegou à sua terra, Mouta, a 13 de julho, Emília Jesus Marques aponta para a casa onde nasceu e viveu “a vida toda” até àquele dia.

“Nunca pensei que a minha casinha fosse toda. Era velha, mas estava arranjadinha. Tinha tudo o que era bom: louças, roupas – de roupa só ficou a roupita que tinha no corpo. Tirei uma carteirita com uns tostões e mais nada”, diz à agência Lusa a mulher de 99 anos, que acabou por fugir assim que o fogo se aproximou daquela localidade isolada do concelho de Alvaiázere, já na fronteira com o concelho de Ourém, desenhada pelo rio Nabão.

Na localidade, ficou apenas um genro e um irmão deste para fazer face a chamas que rodearam por completo o lugar.

“Não tínhamos bombeiros nem nada. Umas pessoas vieram buscar os idosos e fiquei eu e um irmão meu. Ainda ia caindo, que era tanto fumo, tantas chamas. Foi muito duro”, recorda à Lusa Gualdino Silva, que protesta o facto de não ter havido um “único carro” dos bombeiros ali, um lugar “escondido e isolado”.

No próprio dia, quando ia a sair da localidade, Emília percebeu logo que as chamas estavam próximas da sua casa.

A 14 de julho, viu o resultado. “Nunca pensei estar guardada para isto, aos 99 anos”, vinca, recordando que os últimos tempos têm sido duros: perdeu um filho há 11 anos, o marido há quatro e uma filha há dois.

“Agora foi a casa”, diz, de lágrimas nos olhos, enquanto observa as ruínas, ao longe, sentada junto à casa da sua filha, onde tem morado.

Não quer um lar, vinca, pelo menos enquanto “tiver talento para fazer” as suas coisas.

Na aldeia vizinha dos Pechins, no cimo da povoação, José Paixão contempla com a mesma tristeza os destroços provocados pelo incêndio.

Com 87 anos, anda com dificuldade pelo terreno e aponta e enumera tudo o que perdeu: um trator, um motor de rega, uma motoenxada, duas motas, mangueiras, uma ceifeira e um microcarro que eram as suas “pernas”.

No entanto, o pior foi a cozinha, que ficou reduzida “a cinzas”, assim como a casa de banho, criada como uma espécie de anexo perto da casa.

O fogo acabou por não afetar o resto da habitação, graças, segundo José, à porta metálica que fazia a ligação entre divisões.

Na primeira semana após o incêndio, viveu em casa de um filho, no Entroncamento, mas rapidamente quis regressar à terra e hoje passa o tempo no centro de dia de Almoster e vai à noite para a sua casa, mesmo sem cozinha ou casa de banho.

“Estou habituado a isto e custa-me deixar. Só com a morte é que saio daqui”, frisa o homem de 87 anos, que já faz planos para arranjar umas mangueiras e regar algumas árvores para ver se as consegue recuperar.

Na cara de José Paixão, vê-se apenas desalento enquanto pensa como “tanto trabalho e tanta despesa” se transformaram no espaço de horas “em cinza”.

“Há noites em que não consigo dormir a pensar nisto. Durmo um bocado até à meia-noite e depois acordo a pensar nisto. Agora o que vou fazer?”, pergunta, à espera de garantias do Estado que ainda não chegaram para assegurar a reconstrução de parte da sua casa.

Emília Fernandes, de 73 anos, dá graças por estar viva, mas admite que à noite lá surgem os pensamentos sobre a casa que perdeu na Bemposta, também no concelho de Alvaiázere.

Por trás da habitação, junta talheres enegrecidos, panelas queimadas à procura de ver o que se poderá aproveitar.

Para além da casa, perdeu cabras, galinhas e frangos e ainda muitas orquídeas, pelas quais “era maluca”.

A 13 de julho, por volta das 19:00 acabou por ser levada para fora da localidade por um sobrinho que mora em Pombal.

Regressou mais tarde perto da casa, quando já se via “uma fogueirinha pequena” no quarto, mas não tinha qualquer forma de apagar.

Pediram ajuda a bombeiros, mas ninguém foi acudir.

“Se tivessem vindo aqui, eu acho que tinham conseguido parar o incêndio”, conta Emília Fernandes.

Cerca de um mês depois do incêndio, diz que ainda não recebeu quaisquer “certezas” de apoios para a reconstrução da casa, apenas “esperança”.

“Se me pudessem ajudar com alguma coisinha…”, desabafa.

Ao todo, há seis casas de habitação total ou parcialmente destruídas (a autarquia não faz distinção entre primeira ou segunda habitação).

Contactado pela agência Lusa, o presidente da Câmara de Alvaiázere, João Guerreiro, referiu que ainda não tem “qualquer confirmação por parte do Governo” de que haverá apoios para a reconstrução.

“Temos feito contactos e esperamos que haja apoio, porque o município não tem condições para fazer face a todos os estragos”, disse, salientando que esta é a medida mais urgente.

A urgência é vincada por Emília Marques, que faz 100 anos a 26 de novembro e gostava de, por essa altura, já poder vislumbrar pelo menos o arranque das obras da sua casa.

“Ainda gostava de ir lá parar. Ainda gostava. […] Era bom fazer-se a festa [dos 100 anos] com a casa a ser reconstruída, nem que fosse só o começo para dar outra esperança”, frisou.

O fogo em Alvaiázere, que se reacendeu no dia 12 de julho, resultou de um incêndio no concelho de Ourém, no distrito de Santarém, que deflagrou no dia 07, pelas 16:37.

Entre o início e meados do mês de julho terão ardido cerca de 12.500 hectares no distrito de Leiria, fruto de vários incêndios de grandes dimensões que afetaram a região.

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