Opinião: Portugal a arder

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Por uma mão que acende o lume, mil braços são precisos para o apagar. De novo nestes dias, esquecido de 2003, 2005 e 2017, Portugal volta a arder sem que as medidas anunciadas após cada desastre tenham saído do buraco das promessas por cumprir. As imagens na TV são terríveis, ainda que só de longe retratem o horror dos que, impotentes, lutam para defender as árvores, as casas, os últimos animais e as derradeiras hortas do país abandonado; mesmo que não traduzam nem de perto o tanto sacrifício dos que combatem os fogos, todos os anos maiores. Por isso é tão insuportável a aparição do “populista-mor” no ecrã, aproveitando a indignação geral para tiradas de “justiciaria” barata (mas perigosa); por isso surge tão desasado o apelo “governacional” à responsabilidade individual, perante um fenómeno cuja magnitude exige (há muito) mais política e menos puxão-de-orelhas; nos assuntos da nossa terra ficam tão mal os rufias de pelo na venta como os mestres-escola sentenciosos.
Os incêndios em Portugal deixaram de ser anomalia grave para serem encarados como inevitabilidade sazonal – um crime que se livrou do castigo. Mas não foi sempre assim. Eu já sou suficientemente velho para ter vivido um tempo em que os incêndios eram assunto de toque a rebate e mobilização da aldeia inteira para o apagamento da besta. As matas cheiravam a resina e as árvores ainda não tinham o estatuto de inimigo público. Limpava-se o terreno porque as existências vegetais faziam parte do ciclo produtivo que atendia às fomes humanas no funcionamento de um sistema em que terra era produção (ainda que a repartição do seu produto fosse – e assim permanece – lugar de desigualdades). Já não é assim. Já não há quem more no lugar onde o combustível se acumula.
Às portas do outono virão os balanços. Dirão os bombeiros da falta de meios e parco orçamento, dirá o governo das centenas de horas da aviação despejando água e rios de dinheiro em cima das labaredas. De vez em quando um assomo de quase-lucidez, como quando o primeiro-ministro desabafa que “por detrás de cada um dos incêndios existe um problema estrutural”, para logo se desmentir a si próprio ao afirmar que “temos hoje uma estrutura mais robusta, temos hoje mais meios aéreos, mas isso não previne os incêndios. Os incêndios só ocorrem se uma mão humana, voluntariamente ou por distração, os tiver provocado. Somos nós, cidadãos comuns, que temos que fazer este trabalho fundamental para evitar incêndios”. Pois então em que ficamos? O problema é estrutural-por-atacado ou conjuntural-uma-só-mão-muitas-vezes?
Com mais ou menos meios, mais queixas ou mais louvores, o que ficará no registo dos últimos 40 anos é a constatação do abandono e do desprezo pelo mundo rural, pelo interior, pela adaptação da floresta aos interesses do papel, a ofensa à pequena e média agricultura, a desproteção da pastorícia, a eliminação de todas as estruturas de defesa do mundo rural, afinal, os tais elementos estruturais que levaram Portugal ao despovoamento e ao envelhecimento da população, ao encerramento de serviços públicos, à destruição de milhares de postos de trabalho. Não houvesse mais exemplos de má governação e bastar-nos-ia refletir sobre os efeitos “estruturais” da determinação desastrosa que separa a “floresta” da “agricultura”, como quem pretende arrasar o tecido humano que resta, negando o óbvio: quem ainda cuida da terra são os mesmos que ainda cuidam da floresta. Nada que ocupe as preocupações dos alternantes destruidores da soberania alimentar às mãos das Políticas Agrícolas Comuns, promotores da “agricultura de sobremesa”, delegados dos interesses do agronegócio e da grande distribuição.
O fogo destes dias vem de longe. Desde o dia, há quase 40 anos, em que um governante prometeu aos produtores do seu país o acesso a um mercado de abundantes milhões de consumidores. O que ficou por dizer é que o lugar da “Europa” destinado a Portugal não era o de produtor de riqueza. Forçada ao abandono, a floresta portuguesa está agora condenada à produção de incêndios florestais – mas esses ninguém os quer.

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