Opinião: Memórias de uma candidatura ao Ensino Superior sem digital – 1989

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1989 foi um ano atípico no que respeita aos candidatos ao Ensino Superior. A Prova Geral de Acesso (PGA) foi instituída de rompante em 88/89, pesando não menos de 30% entre nós e vidas futuras (os mais curiosos podem recordar o Decreto-lei 354/88, de 12 de outubro). Pretendia avaliar competências de leitura e escrita, analíticas e críticas, aptidão para debater temas atuais. Calculo que deva ter sido a primeira vez que muitos de nós escreveram sobre mass media, globalização e tecnologia e que ganhámos o (bom!) hábito de ler o Expresso. Gerou inúmeras discussões e disputas: afinal, boa parte do nosso percurso de 12 anos corresponderia a algo que antes só tinha cabido – ainda que vagamente – na gaveta “Português”.
Em 88/89, o Ensino Superior (ES) despertava apenas o interesse de uma minoria: eram apenas 123.507 os estudantes matriculados, número que cresceu consistentemente até 400.831 em 2003, ano em que veio diminuindo até 2007, onde finalmente se iniciou a retoma. Em 2021 estão matriculados 411.995 estudantes, o valor mais elevado de sempre, num cenário em que nunca houve tão poucos jovens.
No acesso ao Ensino Superior, a exclusão – palavra não pronunciada mas sempre presente – era regra implícita à data. A baixa escolaridade do país – em especial das mulheres – o facto de apenas muito recentemente se ter transitado para 9 anos de ensino obrigatório (1986), o fraco poder de compra e a dificuldade em viajarmos, uma ainda recente experiência de integração na CEE, tudo nos afastava da Europa e do ES. Dou o exemplo absurdo de os exames de acesso serem na Universidade: para uma aluna de Paião, Figueira da Foz, separado de Coimbra por mais de 3 horas de transportes públicos, estar às 09H00 na Universidade para fazer o exame já era uma pequena vitória! Cumprindo a Lei de Finagle, “qualquer coisa que possa correr mal, correrá mal no pior momento”, nesse ano, os Docentes do ES fizeram várias greves: a do dia do Exame de Matemática fez com que não houvesse vigilantes suficientes e o exame, onde tínhamos lutado tanto para estar a horas, começou muito mais tarde; greves sucessivas à correção dos exames adiaram meses a saída dos resultados, colocando as nossas vidas em standby. As colocações de 89/90 foram finalmente afixadas a 8 de janeiro de 1990, em extensas vitrinas com listagens infinitas. Muita resiliência permitiu que o tempo perdido se recuperasse e hoje olhamos para o que se faz em Portugal como uma marca valiosa que estamos a (ajudar a) construir. Porém, muitos perderam-se no labirinto…
Continuamos a debater-nos pela inclusão de género, de proveniência social, de preparação anterior, por Ensino Superior de qualidade e para todos. O digital ajudou a simplificar processos e a esbater as distâncias gigantes, às vezes de apenas dezenas de km, num país tão pequeno como Portugal. Continuamos a ter pessoas que precisam nos preocupemos: os rankings das Escolas – também os do Ensino Superior – quantificam apenas os inúmeros privilégios e a excelente preparação de alguns. Porém, queremos (sempre!) que o Ensino Superior seja de muitos e porque não de todos os que quiserem lá estar? Na semana do Dia Mundial das Competências dos Jovens (15/julho), vale a pensa lutar por isto!

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