Opinião: À morte não se tiram retratos

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O físico nuclear Frederico Carvalho explicou ao público presente no Espaço 25, ali à Rua Adelino Veiga, o que seria de nós se uma pequena bomba nuclear (dita tática) explodisse sobre Coimbra. O aço do engenho nem precisaria de tocar o chão. A “boa” notícia é a de que, detonada a 800 metros de altitude, a bomba livrar-nos-ia de qualquer tipo de sofrimento, envolvendo-nos numa bola de fogo, evaporados os corpos e os muros, as árvores e os bichos. Coimbra regressaria, num breve segundo, ao contorno nu da terra desabitada que já foi o seu – há muitos milhões de anos – e o Mondego correria para os céus no corpo incandescente do imenso cogumelo nuclear que se levantasse.
Calhasse o vento soprar de sul, suavemente, e a nuvem radioativa chegaria a Pontevedra, na Galiza, tocando de morte a prazo as vidas em que pousasse. Humanos, animais e vegetais padeceriam dos males provocados pelas invisíveis poeiras de plutónio. Mas nós não. Coimbra viria a ser a reencarnação das Hiroshima e Nagasaki sepultadas a céu aberto, nem sequer habitada por desgraçados iguais aos mortos-andantes que as produções hollywoodescas gostam tanto de exibir.
Desde há cinco meses que os telejornais desfiam notícias como quem apresenta uma competição, com o entusiasmo que os miúdos revelavam nos recreios de escola sempre que soava o aviso de “po-rra-da-po-rra-da”. Punham-se em círculo à volta dos contendores – quem a favor de um, quem a torcer pelo outro – até que viesse o senhor contínuo pôr termo ao macabro divertimento.
Guardadas as devidas proporções é nisso que estamos: a Rússia e os EUA pegaram-se de razões no recreio da Ucrânia, e o que se ouve por cá é o grito de “po-rra-da-po-rra-da”. A animação é grande, como grande é o desacordo acerca de quem deu o primeiro empurrão, atirou o primeiro palavrão, desferiu o primeiro soco. Deixarei essa discussão para os adeptos e para os especialistas militares. O meu problema é o de não descortinar, até agora, a silhueta do senhor contínuo. E nem sequer me apazigua o facto de estarem a ser usadas – e aparentemente longe – armas que não são aquelas que se disfarçam no vento. Ainda.
No entanto, as armas herdeiras de Hiroshima e Nagasaki, agora mesmo, em estado de prontidão. E já não são as apenas duas que transformaram o horror em montra da supremacia militar. São agora cerca de 13 mil (aproximadamente 12 mil entre a Rússia e os EUA) as ogivas nucleares prontas a usar na eliminação da Humanidade, distribuídas pelos nove países do mundo que estão capazes de decidir o dia em que a História se conclui. E o senhor contínuo sem aparecer! Em vez dele, ouve-se o ruído desvairado de comentadores a soldo em trabalho de convencimento, prometendo-nos que o rufia da nossa predileção está quase-quase a acabar com a “po-rra-da” em curso, enfardando num sopapo uma turma inteira se preciso for.
Não é o que se vê. Alimentado como está a ser, servindo os interesses que está a servir, o fogo da guerra convencional ameaça tornar-se insuficiente se chegarem a faltar os homens e as mulheres que alimentem as bocas famintas dos canhões, das metralhadoras, dos M142 HIMARS e dos BM-30 Smerch. Que sejamos então nós, os que não têm lado preferido nem se contentam com o papel de espetador, a exigir que se ponha termo a esta guerra enquanto é tempo. Só a paz nos serve porque – estejamos cientes – se a guerra na Europa subir de patamar, o que ficar da Humanidade não será suficiente para justificar o retrato nas glamourosas páginas da Vogue.

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