Opinião: À Mesa com Portugal – Dizer obrigado

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Se vai de férias lembre-se de todos os que o vão servir. Lembre-se de que, para que o seu período de descanso seja agradável, recheado de bons momentos, com conforto, alguém vai ter que estar atrás de uma receção de hotel, numa cozinha quente, num bar ou pastelaria de bandeja na mão, num quarto de hotel a limpar, numa praia a carregar os doces ou gelados que tão bem sabem no meio do calor. Em suma, alguém vai trabalhar para que as suas férias sejam inesquecíveis.

Diz-se que é uma das questões de trabalhar no turismo. Que é um preço que se paga por se fazer aquilo que se gosta. Certo. Sabemos que sim, mas já agora era agradável que a parte do mundo que vai de férias se lembrasse de que do outro lado estão pessoas. E, em vez de exigir ou responder torto, era bom que olhassem nos olhos e dissessem «Por Favor», «Obrigado» e sorrissem com simpatia, respondendo com generosidade do olhar e não como se quem o serve fosse invisível.

É que pode ser uma maçada estar de férias e ter a contrariedade do tempo, da fila do trânsito, da toalha cheia de areia, das algas no mar, do restaurante à pinha, do serviço que demora na pastelaria ou em qualquer loja, da criança que chora e não deixa descansar, mas pior será quem está a trabalhar com um calor abrasador, com os filhos em casa a clamar por atenção e por algumas idas à praia. São pessoas que servem o turismo e não robots. Também têm os mesmos anseios, os mesmos desejos, as mesmas expetativas que o resto do mundo, mas a eles calhou-lhes uma profissão que exige sacrifícios.

Por esta altura, muitos profissionais, homens e mulheres, arregaçam as mangas e trabalham mais do que o esperado. Não pela remuneração, mas porque é preciso não defraudar, porque foram treinados e formados para servir e receber da melhor maneira. Sempre de sorriso no rosto, sempre com o profissionalismo que os obriga a controlar todos os pormenores mesmo quando o excesso de clientes facilita a desordem. As horas de trabalho serão em excesso, o calor e o cansaço irão pesar no corpo, mas teremos todo o setor do turismo a dar o seu melhor.

Os alunos de muitas escolas de formação no turismo e hotelaria irão estar em estágio. Miúdos e miúdas deslocadas da sua residência num primeiro embate com o mundo da ação. Sim, sabemos que só têm a aprender. Mas podemos não abusar da solicitude e simpatia que a profissão exige? Podemos olhar com humanismo para quem tentar fazer o melhor por nós? Podemos fazê-los sentir que respeitamos o seu esforço, que apreciamos o seu trabalho, que vale a pena servir os outros? Podemos dizer, Obrigado?

Infelizmente, somos muito sobranceiros para com o esforço dos outros. O pequeno poder que tanto nos carateriza faz-nos adorar a posição de exigir para com quem nos serve. É como se, de algum modo, encontrássemos afirmação para o nosso pequeno e diminuído ego. É esse o perfil a que estamos habituados, exigir o que nem sequer estamos dispostos a dar.

Dizemos que servir é próprio das profissões ligadas ao setor do turismo e que foram eles que escolheram. Tudo certo. Mas se for possível, podemos atender o outro como ele nos atende a nós. E dizer obrigado aos que trabalham para que nós possamos ir de férias. Eu vou dizer e vocês?

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