Opinião: “Juros. Juro que não era isto que necessitávamos agora”

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Segundo os dados mais recentes do Eurostat, a inflação na Zona Euro situou-se nos 8,1% em Maio, aumentado mais 0,7 pontos percentuais face ao mês de Abril. Se alargarmos a análise aos países da União Europeia, esse valor agrava para os 9%.
Segundo os especialistas em questões financeiras, uma das acções que urge tomar para controlar a inflação é o acesso dos consumidores ao dinheiro. Se há poder de compra e acesso ao dinheiro, isso traduzir-se-á em continuada procura que faz, naturalmente, aumentar os preços. Em resumo, mais dinheiro na economia alimentará a inflação. Também segundo os especialistas, uma inflação à ordem dos 2% é considerada ideal. Ora, neste momento ultrapassa esse valor em mais de 4 vezes.
Sendo certo que alguma coisa terá que ser feita para controlar este crescimento desenfreado, o BCE divulgou que irá proceder ao ajustamento da taxa de juro directora (que está em 0% desde 2016), para 0,25% em Julho e que poderá chegar aos 0,75% em Setembro. É certo que a taxa directora fará um caminho de subida, o difícil é quantificar ou marcar limites. Parece óbvio que quanto maiores forem as pressões inflacionistas, mais o BCE terá de agravar o custo do dinheiro. Ora se agrava o custo do dinheiro, a consequência directa será que quem mais vai sofrer são os que neste momento mais devem. E como é que Portugal está neste aspecto? Mal, evidentemente. Somos crónicos devedores. Crónicos devedores com capacidade para definir constantemente novos máximos de dívida.
Com a divulgação recente dos dados do endividamento da economia portuguesa (para o mês de Abril) pelo Banco de Portugal (BdP), percebemos que o aumento de dívida do Estado, das empresas não financeiras e das famílias, continua: 782,5 mil milhões de euros. Mais 5 mil milhões de euros face ao mês anterior. Não será difícil tirar a conclusão que um agravar das taxas de juro (e tendo em conta que a % de crédito contratados com taxa fixa é residual) trará mais uma dificuldade clara com que todos (estado, empresas e famílias) teremos que lidar.
Centremo-nos nas empresas: também segundo os dados do BdP, o endividamento das empresas privadas cresceu 4,4% face ao mesmo mês do ano passado. Se no período mais crítico da pandemia de Covid-19, uma das principais soluções apresentadas pela nossa governação para combater a redução drástica da actividade económica foi a criação de linhas de crédito, para que a empresas mantivessem a capacidade de fazer face às suas despesas, também neste momento, por consequência de um mercado com problemas na cadeia de fornecimento e o acréscimo desenfreado dos preços, há a necessidade de fortalecer a tesouraria de muitas empresas com recurso a crédito, para que a capacidade financeira não se reduzisse ao ponto de não permitir a continuidade das operações de laboração. Agora surge mais um problema: a solução (financiar) torna-se ela própria um problema adicional. Mais dívida vai significar ainda mais despesa e consequência óbvia, menos margem.
Face a toda esta problemática e deparando-nos com este “ciclo aparentemente viciado” em que uma solução parece induzir um problema, do ponto de vista das empresas o que é que podemos fazer? A resposta é simples: produtividade. Torna-se ainda mais importante conseguir fazer mais com menos e aqui são os colaboradores de cada empresa que poderão fazer a diferença. Comprar mais barato está muito difícil, financiar mais barato vemos agora que é impossível, o aumento de preços é o que temos que combater e os preços para o consumidor, esses já estão ridiculamente elevados. E o que é que sobra?
Juros à parte. Juro que só me parece sobrar o que de melhor as empresas podem ter, os seus colaboradores. Que esses nos ajudem a superar mais este desafio.

*Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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