Opinião: “Como vai ser o Mundo do pós-guerra (da Ucrânia)?”

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Julgo que poucos têm a noção de quanto está a mudar o Mundo, depois de 24 de fevereiro (a data da invasão da Ucrânia pela Federação Russa). A revolução geopolítica em curso está a provocar, de forma mais visível, uma enorme queda do bem-estar dos países desenvolvidos, com uma disrupção nos mercados e nos circuitos mundiais de trocas como nunca tinha ocorrido nas últimas décadas. Acelerando um processo que tinha começado com a pandemia, as economias deixaram de funcionar como costumavam funcionar: faltam produtos intermédios, falta mão de obra, é pouco o investimento em inovação, anda-se para trás no decisivo caminho para a descarbonização do planeta… A subida de preços, que começou pelos combustíveis e pelos bens alimentares, está a alastrar, juntando-se-lhe o aumento dos juros, com implicações na vida das famílias, das empresas e dos Estados super-endividados como Portugal. Sem dar mostras de abrandar, a Guerra na Europa continua, com um país a ser despedaçado por um ditador sanguinário com que parece pressionado pela doença e pela paranóia para tentar deixar uma marca na história, mesmo que seja uma marca escrita com o sangue de muitos inocentes…
De repente, vemos a China a fazer contas ao que aí vem, aprestando-se a lembrar ao mundo que também tem pretensões territoriais que não podem ser ignoradas. Os Estados Unidos lá vão doando ou vendendo armamento, continuando a tentar perceber a grandeza da mudança em curso e entretidos em problemas caseiros (como tantas vezes sucedeu na história). Os países mais pobres, esses, só podem ver nuvens carregadas no seu futuro, com as cadeias de ajuda e solidariedade internacional a soçobrarem perante a dimensão dos desafios e com a fome a chegar.
O mundo que teremos depois desta Guerra não vai ser igual ao que tínhamos antes dela. No mínimo, vai demorar muito tempo a voltarmos a ter mínimos de confiança nas instituições internacionais e nos decisores nacionais. Como todos sabem, a confiança constrói-se muito devagar mas destrói-se muito depressa.
A atividade parlamentar da semana passada teve como ponto mais mediático, o Debate com o Primeiro-Ministro que ocorreu na quinta-feira, no Hemiciclo. Foi uma sessão estranha em que António Costa optou pela tática de, a todas as perguntas, dar apenas uma espécie de resposta-relâmpago genérica, para no final, esgotado o tempo de quem fazia as perguntas e já sem contraditório possível, ficar com um bom bocado de tempo para rematar a seu modo os assuntos que entendeu. Foi o primeiro “Debate” desta Legislatura (e diga-se que de debate pouco houve) e não prenuncia nada de bom: a continuar assim, a legítima maioria absoluta pode transformar-se numa inaceitável pesporrência absoluta dos nossos governantes. Mal vai uma democracia madura como a nossa, quando se conforma com este tipo de comportamento dos seus agentes políticos. É óbvio que as maiorias têm de ser respeitadas mas delas se exige o mesmo respeito perante os eleitos de outras forças políticas – e isso não aconteceu desta vez. Pessoalmente, a minha atividade parlamentar concluiu-se, na sexta-feira, com uma intervenção em Plenário sobre a mudança das regras das Entidades Reguladoras, na qual defendi a necessidade regras mais límpidas sobre a nomeação de membros, de forma a minorar o risco de “captura” dessas Entidades tanto pelas empresas reguladas, como pelo poder político ou outros poderes invisíveis.

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