bagagem d’escrita – Uma outra Europa Albânia-2005

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foto de José Luís Santos

Pela manhã, ainda sob a aragem fresca, era altura de deixar Ohrib, na Macedónia do Norte, e continuar a minha viagem. Apanhei boleia com Andrea, um jovem advogado italiano e os seus amigos milaneses até às portas da Albânia. Pelo meio, ainda parámos num parque nas margens do lago para almoçar num dos vários restaurantes que o incremento do turismo ali semeou. A partir daqui estava sem dinheiro e não haveria um multibanco nas redondezas, mas isso não me impediria de seguir caminho.
Levaram-me a mim e ao Andrea até à fronteira e deixaram-nos lá para depois nos desenrascarmos. Enquanto carimbávamos os passaportes de saída da Macedónia, conhecemos dois jovens albaneses que se prontificaram a dar-nos boleia para a localidade albanesa mais próxima. O nosso problema de ter transporte estava agora resolvido, mas quando chegámos à entrada deste novo país, e tivemos de carimbar uma vez mais os passaportes, fomos apanhados desprevenidos pois devíamos pagar 10 euros pelo visto. Enquanto o meu colega juntava os seus trocos e resolvia o problema, eu constatava que só dispunha de uma nota de cinco euros amarrotada que tinha encontrado no fundo dos bolsos. Fiz uma cara de atrapalhado e, cordialmente, pedi dinheiro emprestado aos novos amigos.
Senti que tinha entrado numa nova realidade, não por ter passado uma fronteira ou ter visto gente diferente, mas pelo enorme solavanco que o carro deu com a mudança do piso da estrada. Foi aí que senti que tinha passado do segundo para o terceiro mundo. A linha de comboio, paralela à estrada, tinha aspecto de não registar qualquer actividade. As pessoas usavam-na como percurso pedonal enquanto outros aproveitavam os carris para se sentarem e conviverem com os amigos. Mais tarde viria a saber que, afinal, ainda aqui transitava uma ou duas locomotivas por dia.
Parámos na primeira cidade, Progradec. Os dois jovens, Ledia e Erion, tinham passado um fim-de-semana juntos sem os seus pais saberem em Ohrib.Viviam e estudavam aqui, e para eles era um fascínio contactar com gente estrangeira. Perguntaram-nos um pouco de tudo sobre os nossos países ou, melhor dizendo, sobre o mundo ocidental. Enquanto desfrutávamos de um gelado nas margens do lago, deram-nos algumas dicas úteis de sobrevivência neste estranho planeta chamado Albânia.
Seguimos as suas indicações e começámos a pedir boleia na direcção de Tirana, a capital. Aqui é complicado distinguir um veículo normal de um público e, como tal, tínhamos de acenar somente aos que passavam com matrícula amarela e vermelha. Enquanto caminhávamos estrada fora à procura da suposta paragem, deparamo-nos do nosso lado direito com uma mulher à procura de algo num contentor do lixo. Não era a primeira vez que assistia a um episódio deste tipo, mas o que mais me marcou foi o próprio cenário em que decorria. E não é uma imagem normal, e portanto fácil de digerir, alguém a esgravatar por restos dos outros para poder sobreviver.
Como pano de fundo, sobressaíam dois dos famosos 700.000 bunkers erigidos por Enver Hoxha, o ditador de má memória que se lembrou de plantar por todo o território estas fortificações com o receio de uma hipotética invasão jugoslava ou de um outro país ocidental, facto que nunca chegou a ocorrer. Estes pequenos edifícios em forma de cogumelos grassam por todo o lado e hoje servem as delícias das brincadeiras das crianças, e para quem precisa de se aliviar, servindo assim de retrete pública.
A viagem continuaria, mas as marcas do regime passado não descolavam do horizonte, e via-me a mergulhar numa outra Europa a que não estava habituado.

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