Opinião: Se te contasse, teria de te matar

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O Facebook é um tipo sisudo, pouco dado à ironia. Não tem sentido de humor. Leva tudo à letra. Tem-se em demasiada conta. Faz birras. É como aqueles miúdos que estragam a brincadeira no auge do divertimento. Não dá o braço a torcer. Tem de levar sempre a melhor. Só continuamos a ser amigos dele porque já tem em sua casa tanta coisa nossa que, se batêssemos com a porta, ficaríamos sem uma boa parte do que lá deixámos.
Um destes dias, um amigo comentou no meu perfil uma foto onde eu aparecia junto à figura de cera do último James Bond, no museu londrino Madame Tussauds. Ele escreveu, com piada, “vais ser tu o próximo 007”. E acrescentou um emoji de óculos escuros. Eu retorqui à boa disposição com uma das frases mais ditas no cinema: “Se te contasse, teria de te matar”. Fui à minha vidinha. Fiz descaso. Mas não tardei a receber a ameaça de bloqueio pelo Facebook, por “desrespeitar os padrões da comunidade”, supostamente por incitação à violência. A mensagem foi anulada. O Facebook achou que eu poderia querer mesmo eliminar o meu amigo. Levou a coisa a sério. Matar, eu?
Fiquei incomodado. Matar, eu? Cheguei até a sentir-me culpado. Na minha cadeira de pensar pus-me a cogitar sobre a frase assassina. “Se te contasse, teria de te matar”. Do Top Gun a Mr. Bean, entre outros, a frase tem sido usada com ironia no cinema. Mas não só. O Presidente Barak Obama utilizou-a numa entrevista à CNN e também durante uma visita a Roswell, a cidade do Novo México conhecida como o lugar onde supostamente um disco voador pousou em 1947. As crianças interpelaram o Presidente. Queriam saber se era verdade que a cidade tinha sido invadida por extraterrestres. Obama brincou: “Se vos contasse, teria de vos matar”.
O Facebook não percebe a ironia e anda obstinado a censurar e a bloquear. O algoritmo não tem sentido de humor. Não sabe distinguir a palavra da ideia. Ignora que o que está escrito nem sempre tem uma correspondência literal. Ao sermos regulados por máquinas, corremos o risco de perder a perspicácia, a singularidade, a cultura. De nos perdermos a nós próprios.
Imaginem que alguém diz “o chão fugiu-me dos pés”. O Facebook bloqueará essa pessoa por anúncio de terramoto? Ou se ler o poema “Morrer de Amor”, de Maria Teresa Horta, agirá contra a escritora? Recusará passar a música dos Queen “Too much love will kill you”?
Os nossos tempos têm sido determinados pela prevalência dos idiotas. São eles que nos regulam. A questão que se coloca é se devemos moderar o discurso porque eles não percebem a ironia. Se o fizermos, estaremos a permitir que os idiotas triunfem.

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