Opinião: Voragem

Posted by

Desceu do luxo à pobreza, da felicidade à tristeza, da alegria esfuziante à amargura. Uma voragem amarga de vivência plena para cidadania contida. O sorvedoiro das apostas infelizes, o turbilhão dos cobradores quando o sonho desmoronou, os tons pungentes na boca dos amigos que já não louvavam, mas vertem ironias e críticas.
A vida devora o corpo e a alma com ferocidade, com uma velocidade só comparável ao crescimento das simpatias outrora. Uma aposta infeliz não depende de mim, disse-me várias vezes. Pode vir da doença, pode chegar da guerra, pode morrer aquele que nos incentiva, pode chegar com tormenta. Há esta voragem do passado que consome o tempo que gastamos na construção do projecto, que degrada relações, que estreita o horizonte. O custo da oportunidade é redutor sobre o futuro e quando optas por um lado rejeitas sempre alguma coisa. É a inerência de quem escolhe, perder. Mal se investiga uma linha se perdem outras. Queres ter um filho? Não podes ter a mesma vida. Queres um cão? Tens de lhe dar tempo. Abres um negócio? Tens de o acompanhar. A opção premeia e depois, se corre mal castiga.
Castiga-nos pela falência, a separação, a rejeição, o fracasso económico, a decisão judicial. Perder pode ser um impulso, mas tem condimentos depressivos, sensações de luto. A voragem instalou-se, como os corvos nos fios de luz a observar o repasto que se entrega. Aguardam. Sabem que virá.
Cristina desceu da ribalta, do teatro, do centro de investigação, da boca de cena e está na escuridão, e espera que a recordem, pensa que virá um dia melhor. Como não tem vindo, encheu-se de desesperança, abandonou-se, amargurou, empalideceu, reduziu a exigência.
A derrota é uma parte do jogo, aquela onde não queríamos estar, mas é a parte de onde se sobe e constrói. A primazia perde-se sempre. A felicidade termina algures. A beleza perde o fulgor. Os que chegam devoram o espaço que conquistámos e são uma nova plenitude. Nada é insubstituível, ninguém faz falta. Esta é a voragem da vida e ela relativiza a importância de tudo e as obsessões que nos empertigam. Tanta energia gasta em ruínas depois de mim. O plano ideal seria sempre a reflexão com perspetivas do futuro, só que “o futuro é sempre longe demais” e pode chegar sempre travestido de improbabilidades agora.
O crescimento é feito das alegrias e das contusões sem perda de consciência. A sabedoria matura a vida nesta aprendizagem de desilusões, de fracassos, de espontâneos sorrisos, de alegrias, de morte e nascimento. O caminho faz-se sempre, com e sem ilusões.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado.

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.