Opinião: Cultura é trabalho

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Mão-de-obra, trabalhador, recurso humano, funcionário – muitas palavras para definir quem faz funcionar o mundo e respetivas organizações (colaborador é outra coisa, e só se vem usando como desvalorizador do trabalho, em flagrante e deliberado atropelo semântico). Um dia, lá longe, descobriu-se que o trabalho podia ser facilitador dos nossos passos pelo mundo. E nunca mais os humanos o dispensaram, dependentes daquele esforço transformador para o essencial, e também para o acessório. Mais adiante descobriu-se que o trabalho era criador de riqueza e, sabe-se por lá por que anomalia dos humanos e respetivas relações, logo viria quem se aproveitasse daquela fonte inesgotável de criação. Mercadoria que passou a ser na complexa teia das construções sociais, a Civilização chegou ao nosso tempo devedora aos construtores de Tebas, a das sete portas, a quem Bertold Brecht prestou emocionado tributo.
Sobre o que é e não é trabalho há por aí grande desentendimento. É trabalho cavar o pão para o matar das nossas fomes e, mesmo assim, tão pouca paga merece quem afunda as mãos na terra; é trabalho ensinar o caminho das letras, dos números, dos fenómenos naturais, das artes várias e, assim mesmo, tão pouco apreço merece quem por ali conduz os futuros dos nossos jovens; é trabalho o cantar, o iluminar, representar, sonorizar, pintar, cenografar, mesmo que qualquer destes ofícios demore a caber no cabaz dos bens essenciais.
Trabalha-se para viver. Ou, dito de outra maneira, nas muitas dimensões que a vida tem, ocupa o trabalho espaçoso lugar, desde o apoio à sobrevivência até às felicidades várias para que todos tendemos na procura do tal “sentido da vida”. Trabalha-se no que pode ser – às vezes com gosto, outras vezes em desgosto, muitas vezes no que pode ser. Mas não há ninguém que, trabalhando, não seja nó da rede intrincada de dádivas, recebimentos e partilhas a que chamaram sociedade.
Nascemos diferentes, em condição e direitos. Não é nada que a Humanidade não se venha empenhando em resolver, por serem mais numerosos os sem condição nem direitos. Mas não tem sido fácil. Muito se tem lutado para que, na sociedade de desiguais, o trabalho possa ser um direito – um recurso afinal ao serviço da dignidade das condições e dos direitos dos humanos. Porque sendo verdade que o trabalho é o criador riqueza, também é certo haver muito quem, trabalhando, nem por isso consiga livrar-se da pobreza. Pior ainda se o ofício em que se calhou, por escolha ou obra do destino, figure na lista daquilo que Salazar considerava ser a ocupação dos “alegres”: a cultura e os braços que a seguram. Pior ainda se o destino do trabalhador esteja marcado para a sorte da precariedade, ali onde os braços são mais baratos e a lei protege os mercadores de suor.
Não corou de vergonha o ministro que, há poucos dias, afirmou à vista de todos que “nós não podemos ter a ambição de acabar com todos os vínculos precários na Cultura”. Mas coraram de vergonha alheia os que sabem (e o ministro sabe) que, em Portugal, os “vínculos” em algumas atividades da Cultura são quase todos precários; e que acabar com toda a precariedade nas áreas da governação que lhe entregaram pode até não ser a sua intenção (e não é) – mas ambição-de-ministro é que nunca poderia deixar de ser. Porque essa é a justa ambição dos muitos que, aqui ao lado, no Convento de São Francisco e outros lugares de Cultura, têm a função de participar na revelação do sublime – e de abrir e fechar as tais sete portas de Tebas – calhando-lhes, ao mesmo tempo, a obrigação de pagar a renda de casa. Quem trabalha merece consideração – o futuro não tem de ser o palco de todas as incertezas.

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