Opinião: Cravos e Ferraduras

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Em fevereiro de 2020, o ex-ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros disse a um pequeno grupo de alunos de Português na Universidade Witwatersrand, em Joanesburgo, que a língua portuguesa “é uma língua africana”.
Na “teoria” do deputado do PS eleito pelo círculo fora da Europa, “em África, o Português não é uma língua europeia imposta aos africanos, é uma língua africana devido às decisões de soberania dos novos estados independentes”, do jugo colonial.
Ficaram perplexos. E no fim, já à saída, alguém referiu: E o Camões, o Pessoa e a Cultura lusa, onde se enquadram?
O antigo governante evitou estar com a sua comunidade emigrante, em Joanesburgo, onde vivem pelo menos 200 mil pessoas da mesma cidadania de Augusto Santos Silva a quem lhes arrancaram “raízes e bens” durante a “abrilada” de 1974 nos países que edificaram em Angola e Moçambique, sem terem direito a um referendo e eleições, e agora a língua. Na África do Sul, recomeçaram as suas vidas do zero celebrando Camões e Pessoa.
Após 48 anos, o Governo português continua sem apresentar um pedido de desculpas formal; resolver o seu incumprimento nas compensações financeiras e a conceder a mesma representatividade política a estas suas gentes, nascidas e educadas no Ultramar, como milhares de outros, a quem Augusto Santos Silva apelidou pejorativamente de “retornados”.
No discurso que proferiu na sessão solene comemorativa do 48º aniversário do 25 de Abril – dois anos depois de vir à África do Sul “preparar uma visita de Estado” que nunca aconteceu -, Augusto Santos Silva afirmou “alto e bom som” que “esses emigrantes retornados são um dos alicerces do regime saído do 25 de Abril”, defendendo que se deve aos emigrantes o reconhecimento internacional de Portugal “como país pacífico, seguro, humanista e cosmopolita”.
Que país “humanista” é esse que abandonou e discrimina há 48 anos como “retornados” os seus compatriotas; ajudou na militarização das Forças Armadas do regime segregacionista do ‘apartheid’, nas décadas de 1970-1980, e hoje militariza indiscriminadamente forças de extrema-direita na Ucrânia?
Como é que a revolução de 25 de Abril concedeu a plena cidadania aos emigrantes se já a tinham?
Alguma vez os “Capitães” de Abril pensaram naqueles que deixaram para trás abandonados nas suas “colónias”, onde obrigaram milhares de jovens portugueses a entregar a vida pela mesma bandeira?

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