Celebrar a vida e a morte em Varanasi, Índia-2017

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Há cidades com um nome tão sonante que nos fazem depreender que encerram em si algo de muito especial, qualquer coisa que não se percebe bem o que será antes de chegarmos, mas que rapidamente perceberemos o porquê de um conjunto de letras dar origem a uma palavra tão encorpada. Varanasi é um desses raros casos.
Nos ghats, as várias escadarias que dão acesso ao rio mãe deste país, filas de peregrinos fazem um percurso pendular até às suas águas, tão poluídas quanto sagradas para aqui se purificarem da vida terrena. Muitos, trazem uma garrafa para encher desta matéria que contém muito mais que os compostos químicos naturais. É um elixir para muitos males, sonhos, esperanças e inseguranças.
Já de noite, dirijo-me para o ghat de Manikarnika, onde qualquer hindu deseja ser cremado. Cruzo-me com uma pequena procissão a carregar um defunto numa padiola de bambu. É óbvio o destino que eles tomarão, e será o mesmo que o meu. Segui-os até chegar a um espaço mais aberto, junto ao Ganges. Aqui, entrei noutro mundo, mergulhando num microcosmos que transbordava da órbita da minha compreensão e conhecimento. Aqui, há cremações a todas as horas, a todos os minutos do dia e da noite.
Pelo caminho, os vendedores de lenha fazem a vida ao negociarem 250 quilos para cada cliente, a quantidade necessária para uma cremação aceitável. Tudo aqui é consumido como se fosse sangue num corpo humano, mas numa dimensão de chama eterna. As labaredas, o fumo omnipresente que se apodera de nós sem dó nem piedade, que nos faz chorar os olhos já avermelhados que não aguentam uma brutalidade que se vê e se sente tão fortemente. Essas mesmas labaredas, imortais fontes de purificação dos corpos que consomem num constante ciclo que nos mostra também o que é a vida, existência tão fugaz que acaba resumida a cinzas e a nada, como a caveira que parecia que olhava para mim, no meio das chamas, crânio de alguém que viveu, que teve o seu lugar no mundo, que amou e que foi amado, e agora está ali, a desfazer-se junto dos seus familiares mais chegados. Quem pode ficar indiferente perante isto?
Todo este cenário, já por si tão fantasmagórico, é consumido pelo som vibrante e desenfreado de cânticos a um ritmo tão frenético que leva ao êxtase até os mais insensíveis. Cinematográfico é um eufemismo para descrever tudo isto. Aqui é mesmo a realidade, a “Verdade” para muitos. O corpo chega, é banhado nas águas para a sua purificação e depois colocado numa pira a que o sacerdote deita fogo e ali fica a arder, junto de tantos outros, num certo anonimato e privacidade. No fim, o sacerdote espeta um pau num pedaço do que resta e atira-o ao rio, pega numa enorme taça de barro, enche-a de água e ao voltar à pira, vira-se de costas e atira-a para as chamas que reduziram a nada quem ali ficou. Isto, multiplicado por centenas ou milhares, todos os dias. Tudo isto é um gesto mecânico de quem aqui faz a sua vida, esperando os mortos que aqui chegam. E tudo continua, noite dentro, com as intermináveis procissões de gente que aqui chega numa dialética tão singular.
Limito-me a olhar, a tentar respirar, a ver a celebração da vida, da morte e da reencarnação com a roupa e a câmara a ficarem com uma crescente camada de cinza daqueles que já foram aquilo que eu sou, e que eu sei que serei aquilo que eles são. Varanasi é tudo isto. Aliás, é muito, muito mais do que possa expressar ou mostrar através de imagens ou vídeos. É muito mais do que a soma de todas as suas partes.
Basta ser Varanasi, como o seu potente nome indica.

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