“Ver ex-presidentes de câmara a pedirem contratos de cantores nunca me passou pela cabeça”

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FOTO PEDRO AGOSTINHO CRUZ

Desta vez, ao contrário de no mandato 1997 – 2001, não teve direito ao estado de graça, porque, cerca de um mês depois de tomar posse, foi apresentada a proposta do Orçamento do Município, com a oposição (PS e PSD) a condicionar a viabilização a alterações, que o executivo camarário aceitou. Estava à espera que isto acontecesse, tendo em conta que não tem maioria absoluta?

Não estava à espera disso, com tudo aquilo que se tem passado. Não quero entrar no campo das qualificações do que se tem passado. Vamos lá ver: o Orçamento é uma questão grande, uma questão estrutural da governação. Agora, nós passamos os dias com coisas pequenas suscitadas que me fazem impressão. Ver ex-presidentes de câmara a pedirem contratos de cantores e coisas afins é uma coisa que não me passava pela cabeça; nunca vi. Todos os dias a pedirem isto e aquilo e [perguntarem] se podemos pôr no site (da câmara assuntos da gestão da autarquia)… Não vou dizer qualificativos, como referi…

Apetece-lhe dizer que se está a fazer política com pouco nível? Também estava habituado a outro nível de fazer política, não é?

Não. Isso não tem a ver com o nível, vamos dizer, hierárquico da administração, isso tem a ver com o nível das pessoas. Sinceramente, aquilo que tenho visto não me causa nenhum sentimento positivo, mas não vou qualificar. É todos os dias… Quando digo que é todos os dias, é todos os dias: pedidos, propostas; pode mandar o ajuste direto de não sei quê; pode mandar o documento não sei quantos… Porquê? Houve vários presidentes de câmara que perderam as eleições, mas vários renunciaram [ao mandato de vereador], como em Coimbra e Lisboa, e outros não. Ora, ter na oposição o ex-presidente da câmara [Carlos Monteiro, PS], mais a equipa que estava, não todos, porque não foram eleitos todos, é uma coisa muito complicada, porque estão, a toda a hora, porque ainda não digeriram [a derrota], a ver se o que nós estamos a fazer é aquilo que eles queriam que fosse feito. Se for ver, nós não podemos fazer nada: motonáutica, não podemos fazer; (…) a segunda noite de fogo de artifício, não podemos fazer; é um post no Facebook que não podemos fazer; é o Paço de Maiorca que não podemos abrir… Não há nada que nós façamos que não salte a oposição, absolutamente combinada: ora avança o PS, ora avança o vereador do PSD. Não digo o PSD, porque, no PSD da Figueira, a grande maioria não tem essa posição.

No fundo, aquilo que está a dizer é que Carlos Monteiro e os restantes vereadores do PS que transitaram do anterior executivo camarário ainda não desligaram a ficha do poder. É isso?

Ainda não digeriram a derrota, manifestamente. Eu digo isto com humildade e com respeito, porque já perdi várias vezes. Eu acho que eles vivem em permanente ficção, porque dizem que sou arrogante… Vocês são testemunhas: eu trato o doutor Carlos Monteiro como normalmente os presidentes não tratam os seus antecessores. Aliás, trato-o sempre como presidente, e não quero saber se ele foi eleito ou não, porque eu já fui primeiro-ministro sem ter sido eleito.

Acha que Carlos Monteiro não está a respeitá-lo do mesmo modo que o presidente o respeita?

Não quero entrar em pormenores, [mas] nunca vi nada assim, quer por escrito, quer verbalmente. Há regras de educação mínimas, e nunca vi nada assim.

Essas regras não estão a ser cumpridas?

Não. Eu não revelo mensagens que recebo, mas é absolutamente inimaginável! Tenho pena que os figueirenses não saibam tudo. E o problema dos figueirenses e que, às vezes, sabem muito pouco do que se passa, na verdade. Os figueirenses tinham todo o direito a saber como está o Paço de Maiorca, e o que é lamentável é que tenha sido fechado, e ainda me atacaram por eu ter ido lá, ao jardim, antes das Eleições [Autárquicas]. (…). O PS, quando não estava em maioria [2009 – 2013], pôde governar à vontade.

Um dia destes, ainda vamos vou ouvi-lo citar Cavaco Silva, quando, a propósito das “forças de bloqueio” disse “deixem-me trabalhar”.

Eu não preciso que eles deixem, porque eu trabalho na mesma. Agora, preparam-se para fazerem uma coisa interessante sobre esta história [do centro de formação profissional] nas instalações da extinta Universidade Internacional. O vereador do PSD mandou para aqui uma proposta para prorrogar o compromisso da câmara.

Baseando-se nos dados que já apurou, o que é que pode avançar acerca da auditoria às contas da câmara, que definiu como prioritária?

A auditoria ainda não está feita, ando a fazê-la pessoalmente, estou a pedir dados. Se a câmara tivesse os dados todos que são precisos, talvez dispensasse a auditoria. O que nós queremos saber é isto: como é que evoluiu a célebre dívida e, nomeadamente, como é que passou de 30 e tal milhões de euros, 38 ou 39, quando eu saí, para 90 milhões de euros no final dos mandatos do engenheiro Duarte Silva? O engenheiro Duarte Silva era um homem responsável, sensato, boa pessoa… Não estou a fazer juízos, mas gostava de saber. E acho uma desonestidade sem limite que digam “a responsabilidade é sua, porque ele teve de arcar com o que veio a seguir”. Então, digam-me em quê!

Não tem os dados?

O doutor Carlos Monteiro disse que entraram mais de 70 pessoas [para a câmara durante o mandato 1997 – 2001. Pedi [a informação aos serviços internos], mas disseram-me que os concursos daquele tempo foram destruídos. Destruídos!?. Há regras para os documentos públicos! Como é que os destruíram? “Então vamos pôr uma equipa a ver as atas [disseram-lhe os funcionários]”. Eu gostava de saber [quantos novos funcionários foram contratados]. Amigos meus, que eu saiba, não ficou cá nenhum.

Portanto, ainda não tem dados sobre a auditoria.

Não tenho. Acha normal!? Esta situação, para mim, é inaceitável. Constituíram uma equipa para ver as atas e ainda não acabaram. Continuo à espera, há semanas. Eu sou presidente de câmara! Pedi coisas supostamente contra mim! Não conseguem! Digam-me lá como é que subiu a dívida! E depois o que é que diz o PS? Diz que são 90 milhões, apesar de o doutor Carlos Monteiro ter dado uma entrevista a dizer que a maior parte da dívida não é de Santana Lopes. Eles [PS] sabem [que a maior parte da dívida não é do seu mandato], mas os serviços [da câmara] não conseguem fornecer [os documentos].

FOTO PEDRO AGOSTINHO CRUZ

“A ideia é haver formação superior completa, também a licenciatura”

O ensino superior é outra das suas prioridades. Que tipo de ensino superior vai regressar à Figueira da Foz?

Por aquilo que me tem sido transmitido pelo senhor reitor da Universidade de Coimbra [Amílcar Falcão], a ideia é haver formação superior completa, também a licenciatura. Eu adorava que começasse a funcionar este ano. Mas se não tiver instalações, eles não podem funcionar no ar. Eu sabia que, como disse na tomada de posse, que outras instituições não iam ver [a vinda a Universidade de Coimbra] com bons olhos. Mas, por mim, podem vir todos. E quero que venham a universidade, o politécnico… Podem vir todos, mas preciso de espaço. A Figueira tem espaços públicos fechados, e são tão necessários…

A propósito de instalações, a câmara invalidou o contrato de comodato assinado com o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) para a instalação de um centro de formação profissional na antiga Universidade Internacional…

Fiquei satisfeito. Eu não sou hipócrita. Aquilo é para ser uma universidade. Fico satisfeito, porque a grande prioridade da Figueira é ter cá o ensino superior, outra vez. Mas estamos a falar da Universidade de Coimbra! E se quiserem vir outras, venham. Tendo sido cedido aquilo por 50 anos ao Estado, como se o Estado fosse mais pobre do que a câmara, é a demonstração inequívoca de como o ensino superior não era uma prioridade. Quando se tem umas instalações que foram de uma universidade e se dão ao IEFP, não se está a pensar em trazer o ensino superior. Na Figueira há uma grande diferença, ao longo destes anos todos, entre a conversa em tempo de campanha e o mandato. Eu acho que temos de fazer, depois da eleição, o que dissemos na campanha, e aqui não.

A Universidade de Coimbra não pode instalar-se num dos imóveis públicos que estão devolutos?

Eu até admito uma solução, mas ainda não tenho isso fechado, de coexistência da Universidade de Coimbra com o IEFP, porque aquilo é muito grande. Ma o senhor reitor também tem de me dar a sua posição sobre o que quer fazer cá. Portanto, não posso ter uma posição final sem saber isso. (…) O antigo terminal rodoviário necessita de construção nova e não há tempo. Eu não quero perder tempo, e gostava que [a Universidade de Coimbra] começasse a funcionar já em setembro ou outubro.

E se o IEFP recorrer da decisão, não vai atrasar esta processo?

Vai. Mas eu não os aconselhava a fazer isso.

Porquê?

Porque a câmara também tem os seus meios. Se o Estado quiser meter-se com a câmara, pode metre-se, mas eu não os aconselho, porque tenho meios jurídicos e legais para fazer face a isso. O que mais me surpreende é ver forças partidárias supostamente defensoras dos interesses dos figueirenses a fazerem o jogo do Estado Central. Não digo que não é importante a formação profissional. Quando telefonei, pela primeira vez, à diretora do Centro de Emprego [Adelaide Crespo] disse-lhe que tenho toda a disponibilidade para encontrar uma solução. Mas discordo completamente do que fizerem o meu antecessor e a câmara, que é aquele contrato de [cedência das instalações] por 50 anos. O que me custa é ver o PSD da Figueira como ajudante de campo do PS. Na prática, a fazer o que o BE fez na campanha. Isso é que me custa, porque, que o PS se doa, eu compreendo, porque era quem estava no poder. Ainda esta semana vi um “post” sobre o Paço de Maiorca: eles [PSD] sentem-se com as dores do PS. Nem pensam que eles próprios fizeram o mesmo que nós estamos a fazer: foram ao Paço de Maiorca e puseram, até, um cartaz a dizer “Paço de Maiorca, uma vergonha”.

“Choca-me tudo o que é discriminação: porque é que a margem sul está naquele estado de atraso?”

Que vai ser feito nos edifícios do Cabedelo?

O processo [do concurso público] foi feito sem ser concertado com a administração portuária. Estamos a trabalhar nisso com a administração portuária. O contrato para a educação, para o 2.º ciclo, de 800 mil euros, foi anunciado [pelo anterior executivo camarário], mas não estava assinado; o acordo com o hospital para os cuidados paliativos foi anunciado, mas não estava assinado; diziam, na campanha eleitoral, que havia não sei quantas candidaturas ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e não havia nem uma. Tive uma reunião no Instituo de Habitação e Reabilitação Urbana, porque criaram um gabinete para a estratégia local de habitação, e estamos a trabalhar a 200 à hora para não perdermos [os apoios do PRR], porque a Figueira precisa de casas como de pão para a boca e o PRR financia a 100 por cento, quer construção nova, quer reabilitação das antigas. O que foi lançado no mandato anterior, isso é de ir às lágrimas, foram empreitadas de eficiência energéticas em casas que estão a cair. Não tem pés nem cabeça. (…) E, depois, têm a lata de dizerem “ação”. Ma estão a brincar comigo!? Podem dizer isso a todos, menos a mim, porque, normalmente, há ação a mais.

Que gostaria de ver instalado no Cabedelo? O seu antecessor João Ataíde [já falecido] disse que queria ver ali “uma nova Troia”.

Com todo o respeito que tenho pelo doutor João Ataíde, de quem ouço boas referências, mas eu acho que não deve ser uma nova Troia, deve ser uma nova Figueira. Tenho esta ideia desde que estou na Figueira, que é exatamente valorizar turisticamente aquela zona. A mim choca-me tudo o que é discriminação: por que é que a margem sul está naquele estado de atraso? Tem o hospital, aquelas praias fabulosas, mas falta-lhe muitas coisas. Ainda não está definido [o que vai ali ser feito], porque, em primeiro lugar, tenho de resolver o assunto com a administração do porto. E quanto mais disser o que quero fazer lá, mais o preço sobe.

Na campanha eleitoral também colocou a tónica no conceito “cidade do mar” e no centro de investigação florestal. Em que fase se encontram esses dois projetos?

O do mar está ligado ao projeto da Universidade de Coimbra. Se ficar na antiga Universidade Internacional, as aulas serão lá, mas eu gostava que o centro de investigação do mar fosse na margem sul e perto do mar [mostrou imagem da maqueta do ante estudo arquitetónico], num terreno municipal. Tenho os projetos importantes a andar, uns mais adiantados, outros menos. Às vezes, em alguns casos, tenho dúvidas, o que é natural, pois não sou como algumas pessoas que não têm dúvidas [e raramente se enganam, frase atribuída a Cavaco Silva]. O primado da investigação na vida da Figueira é algo que eu quero que seja adquirido, mas demora tempo a fazer. Estou a trabalhar isso também com a Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra. Nomeadamente, para um projeto de que tenho falado pouco, e para o qual já temos academia e a empresa, mas não devo falar delas ainda, que é o centro de observação de alterações climáticas. Quero que a Figueira, em Portugal, seja também a metrópole mais destacada nesta matéria, que é tão atual, mas sempre ligada à componente da investigação e à formação.

Não pode dizer qual é a instituição de ensino superior associada ao centro de observação de alterações climáticas?

Não. Por enquanto, não posso. Mas vai ter candidatura a fundos europeus. (…) O Cabo Mondego, para mim, é um sítio absolutamente fabuloso, e talvez seja uma das possibilidades para instalar esse centro. E não só, porque o Cabo Mondego tem mais possibilidades. Até pode ter iniciativa privada, alguma unidade hoteleira. [Ressalvou que nada do que ali possa vir a ser feito porá em causa o estatuto de monumento natural e a candidatura a um geoparque intermunicipal]. Neste momento, aquilo [edificado] é de privados, mas a câmara tem duas hipóteses: negociar ou expropriar, por utilidade pública. O Cabo Mondego, a médio, longo prazo, é um projeto fabuloso; a curto prazo, não me resolve as soluções. Por isso é que eu penso que também tenho direito a ter dúvidas. Portanto, o trabalho com a Universidade de Coimbra está nesta base: sabermos o sítio certo. Espero que a oposição diga assim: “presidente, vamos arranjar um sítio para o centro de formação”. O que os figueirenses todos querem é que venha o ensino superior. Tenho corrido seca e meca para encontrar um espaço, e estou a dizer que não há espaço melhor do que aquele [Sítio das Artes], mas para o centro de formação há. Por que é que deixaram [o anterior executivo camarário] ir as instalações dos Serviços Florestais para o Revive [programa de transformação de imoveis públicos em equipamentos turísticos] e está à venda, pelo Estado, e é uma casa ótima, com 500 metros quadrados, onde podiam funcionar unidades de formação? A câmara devia ter dito: “não senhor, esta não vai nada para o Revive, vamos fazer um acordo com o Estado!”. Foram pagar 500 mil euros ao Estado para expandir a Zona Industrial e, depois, dão de graça [ao Estado o Sítio das Artes] por 50 anos! Não compreendo.

O centro de investigação florestal vai mesmo para Brenha?

Para essa área, sim.

É para este mandato?

Em absoluto! Se quiserem vir pedir contas no final do primeiro ano, vão ver como isto estará.

“Se a Turismo Centro de Portugal tiver algo de interessante a propor-nos, estamos abertos”

Vai manter a vegetação no areal urbano?

Se mantiver a vegetação, é aquela corrigida. Tenho falado com técnicos de ambiente e faculdades. O meu propósito inicial está em equação. O meu propósito inicial era limpar aquilo tudo. Há muitos figueirenses que acham que a praia é muito mais bonita sem aquilo e há outros que não.

Está interessado na instalação de um terminal de cruzeiros na cidade, obra que terá de ser feita pela administração portuária?

A propósito da administração portuária, quero reafirmar que, depois das Eleições Legislativas [que se realizaram no dia 30 de janeiro], estou absolutamente convencido que vamos ter representação da Figueira, como deve ser, na administração do porto. Mas sim, em relação ao que está a dizer [terminal de cruzeiros]. Recebi investidores e representantes de investidores que querem investir numa marina. Outra coisa são os cruzeiros, mas o cais também tem de ter condições para atracarem. O que estamos a fazer é ver quem são os operadores turísticos a montante, para ir ter com eles e oferecer-lhes, juntamente com a indústria hoteleira, condições atrativas para ficarem cá, e não irem a correr para outras cidades.

Vai construir uma piscina coberta na cidade, um pavilhão polidesportivo e um espaço multiusos municipais, projetos do anterior executivo municipal?

Projetos devia ser uma palavra banida da Figueira. Eu gosto mais de falar em obras. Não tenho problema nenhum em adotar ideias de outros, desde que sejam boas. A que mais agrada dessas três é o multiusos. A questão da piscina? Temos a do Ginásio, de que as pessoas gostam tanto, que é boa e eu também apoiei.

Está a ironizar?

Não estou nada. É boa, é a única que há. Estou a ironizar é não terem feito mais, durante estes anos.

Agora tem a oportunidade de fazer uma.

Não sei, depende… Não posso aumentar a dívida.

E o pavilhão polidesportivo?

Há o do Ginásio.

Que se passa com a piscina-mar, cuja exploração foi concessionada, no anterior mandato, por 50 anos, e as obras ainda não começaram?

Já ouvi o doutor Carlos Monteiro dizer: “se o presidente da câmara quiser reponderar o concurso da piscina-mar, estamos abertos a isso”. Estou completamente aberto!

Mas a concessão já foi adjudicada.

Estamos a estudar, juridicamente, como proceder. Mas não me agrada, até por razões jurídicas, a solução que foi encontrada e a decisão que foi tomada, nos termos em que foi tomada.

O que é que pretende fazer no Paço de Maiorca?

Não posso tomar todas as decisões sobre todos os assuntos ao mesmo tempo. Estou quase na fase final do processo. Acho que o mais fácil, não é o que mais gosto, e o mais económico é acabar o que estava a ser feito. É uma coisa que me faz confusão, porque faltava cerca de um milhão de euros para acabar aquela obra. Não percebo por que é que não andou. Isso é passado. Quero acabar a obra.

Ou seja, vai ser uma unidade hoteleira.

Vai ter aptidão para isso.

Lançando um concurso para exploração hoteleira por privados ou fazendo uma parceria, como foi feita no passado?

Há uma parte que é cultural. Foram publicados na página da Figueira A Primeira os recortes dos jornais da altura [da escritura da compra do imóvel, pelo município, cumpria Pedro Santana Lopes o mandato de 1997 a 2001], em que está lá dito qual era o propósito quando se comprou o Paço de Maiorca. Portanto, funcionar ali um espaço cultural, formação também na área do ambiente, e utilizar o Palácio Conselheiro Lopes Branco simultaneamente. Aliás, eu faço esta declaração, na assinatura da escritura: “espero que os futuros dirigentes da câmara e da Assembleia Municipal nunca decidam uma utilização diferente para este espaço, que é um espaço eminentemente cultural”. Agora, tem a parte dos apartamentos novos, que está feita. A minha ideia é manter a parte cultural, na parte visitável, e a outra parte ser explorada por privados. O meu propósito é acabar a obra e gastar o menos dinheiro possível. Quando acabar o período de visitas, vou limpar o jardim. Aquilo até pode servir como formação ambiental para as escolas, jardinagem… Há dias, em Lisboa, uma pessoa falou comigo para me propor fazer na Figueira uma escola nacional de jardinagem. Aliás, eu recebo as mais variadas propostas de pessoas que querem vir para a Figueira fazer coisas. Há uma outra empresa de reparação naval… Acho ótimo. Venham todos, desde que tragam valor acrescentado.

Vai manter a expansão da Zona Industrial ou vai optar pelo aeródromo que pretendia construir no seu primeiro mandato?

As duas componentes cabem lá. Mas não estou a dizer mais nada do que isto. A expansão tem dois lotes e para um deles os concorrentes não aceitaram o preço e só um dos lotes é que está a andar. Mas vou manter, não vou andar para trás. Precisamos de terrenos. O aeródromo é um assunto que, neste momento, não está em cima da mesa.

As obras da Baixa da cidade e a última fase da requalificação da frente marítima de Buarcos são para concluir?

Em Buarcos, no essencial, não. Considero que a obra que foi feita, com a devida vénia, não serve. Aquilo está um sarilho, ao fim de semana. Por causa de uns lugares de estacionamento, o trânsito engarrafa ali. Não gosto de destruir o que ficou feito, mesmo que não concorde. Agora, aquela obra precisa de um toque. Na zona velha [da cidade], as obras têm de ser feitas, por causa das infraestruturas, mas estou a fazer a reprogramação para não se causar os loucos transtornos que se causaram na primeira fase. Vamos fazer quase rua a rua, fase a fase, e com o mínimo de transtorno para as pessoas [comerciantes], e indemnizá-las, fazendo o cálculo dos prejuízos.

Ou seja, em Buarcos, serão corrigidas obras para haver maior fluidez de trânsito.

É. Para já, não tenho mais nada previsto. A Figueira está cansada de obras mal feitas. Temos de ter muito cuidado. Há uma parte que vai mudar, que é a entrada da cidade [junto à rotunda da estação de comboios]. O posto de combustível, que já devia ter saído, vai sair no final de junho. Queriam ficar, mas não vou dar licença para isso. A Figueira tem de ter uma entrada mais bonita.

Que vai fazer ali?

Ainda não sei. Vou lançar um concurso de ideias para arquitetos paisagistas.

Mas a maior parte do terreno é da BP.

A maioria é da BP [e a outra parte é do município], mas há uma figura chamada expropriação, quando não há acordo, por utilidade pública. Até 30 de junho, têm de entregar aquilo regenerado.

No primeiro mandato, retirou a Figueira da Foz da extinta Entidade Regional de Turismo. O que é que vai fazer em relação à Turismo Centro de Portugal (TCP)?

Se a TCP tiver algo de interessante a propor-nos, estamos abertos. As questões pessoais não se devem sobrepor às institucionais [o presidente da TCP, Pedro Machado, foi candidato do PSD à Câmara da Figueira da Foz. Durante a campanha eleitoral, houve momentos de grande tensão entre as duas candidaturas, devido, sobretudo, às iniciativas, junto do tribunal, protagonizadas pelos social-democratas]. Eu gosto de dizer que a Figueira é uma região autónoma. Está, aqui, no extremo Oeste, e muitas vezes é esquecida por causa disso.

Que tipo de autonomia reclama para a Figueira da Foz?

Quero fazer as minhas próprias iniciativas de promoção turística. Daqui a dois ou três meses, vamos fazer uma em Espanha [na zona fronteiriça]. (…) Não está previsto sair da TCP, se as coisas correrem bem. Temos tido alguns pequenos sinais de boa-vontade por parte da TCP. A ver vamos se continuam. Se continuarem, não tenho gosto nenhum em ruturas. Agora, exijo é que a Figueira seja tratada como deve ser. Nomeadamente, nas campanhas de promoção e nos vídeos que são feitos. A TCP tem muito dinheiro, eu prefiro poupar, não tenho gosto nenhum em ir gastar dinheiro em campanhas de promoção. Mas deve-se trabalhar em conjunto. Garanto que aquilo que se passou de lamentável na campanha não terá efeitos ao nível do relacionamento institucional, porque é esse o meu dever.

Já disse que não é fã dos desportos de praia. Vai manter as provas que se têm realizado?

São tantas… Vamos manter. Só não vamos manter o futbeachgolf. Mas também não há nada para manter, porque aquilo nunca existiu. Houve a inauguração e parece que nunca mais ninguém lá foi. Também vamos manter o [festival RFM Somnii – O Maior Sunset de Sempre]. Vou manter o que tiver pés e cabeça. Vamos falar de outro: não param de me perguntar se vou manter o Carnaval. Vou manter, a não ser que aconteça alguma coisa de excecional. Temos é de garantir o controlo nas entradas, cumprir o protocolo em vigor. Eu cumpro a lei, cumpro os regulamentos. Com todo o respeito pelos meus colegas que tomaram a decisão de cancelar o Carnaval, acho que foi muito cedo. Se todos cancelarem, magnifico! Venham todos para a Figueira. O que eu quero é que as pessoas venham à Figueira, sem porem em causa a saúde. Vamos ter mais bancadas, vamos sentar as pessoas com o devido espaço. O corso é ao ar livre. Ainda pode não haver, mas não vejo, neste momento, razões para não haver.

Em sede da revisão do contrato de concessão de água e do saneamento, admite tomar medidas para baixar o tarifário da água?

Está muita coisa em cima da mesa. Os concessionários querem sempre renovar os contratos. Há ainda obras por fazer, e depois há essa questão. Está tudo em cima da mesa, antes de se tratar.

O parque de estacionamento junto ao mercado é para avançar?

Sim. Será, praticamente de certeza, subterrâneo. São áreas concessionadas [para estacionamento à superfície]. Em princípio, será o concessionário a fazer a obra. Já está a fazer o projeto. Foi-nos posta a hipótese de eles fazerem estacionamento tarifado em todas as praias, que já estava conversado com o executivo anterior. A nossa posição, para já, não é concordante com essa orientação.

FOTO PEDRO AGOSTINHO CRUZ

Na campanha eleitoral disse que havia uma empresa estrangeira interessada em investir na Figueira da Foz no setor das altas tecnologias de cibersegurança. O interesse mantém-se?

Estou a trabalhar nesse processo. Está a ser mais demorado do que pensava. Não está a andar à velocidade que eu gostaria, mas está a andar.

Já chegou à conclusão de que não é possível que um vereador da oposição aceite a delegação de pelouros, ou está à espera que mudem os protagonistas locais do PSD e que o partido se aproxime mais de si, tal como propõe uma moção aprovada pelo plenário de militantes do partido?

São assuntos internos do PSD, não me vou meter. Eles que façam o que entenderem. Cada um sabe o que é melhor para si para o futuro. Espero que tenham todos aprendido o que sentem os eleitores da Figueira. Eu sei o que faria se estivesse no lugar deles, mas não me quero meter nisso, quero respeitar. O PS e o PSD é que sabem o que é melhor para a imagem deles perante a população.

Não delegou a vice-presidência da câmara porque estava à espera que alguém da oposição aceitasse ser vice-presidente, ou tomou a decisão para evitar uma crise no seio do executivo camarário?

Por nenhuma dessas razões. Também não nomeei chefe de gabinete. Gosto de deixar passar o tempo, até ver quem merece.

Ou seja, estão todos sob avaliação.

E eu (também)!

Mas o presidente é quem decide.

Mas é preciso correr o risco e ir a eleições, e quem correu [o risco] fui eu. E quem as ganhou fui eu. Portanto, quem tem o poder de decidir, democraticamente e com respeito, sou eu.

Esse é um recado para a oposição e também para o seu executivo?

É para todos. Não tenho pressa nenhuma em ter vice-presidente. Mas garanto que não tem nada a ver com questões internas. Era o que faltava! Sou independente, ainda por cima.

Quanto se candidatou, em 2021, à Câmara da Figueira da Foz disse que veio para cumprir 12 anos de mandatos. Não haverá mais nenhum imperativo de interesse nacional que o faça mudar de ideias e regressar a Lisboa?

Só internacional. Só se me propuserem para Secretário Geral da ONU (risos).

Então está aqui para se recandidatar?

Se Deus quiser. Se Deus Nosso Senhor me der vida e saúde, vão ter de me aturar (sorriso).

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