Pela rota da seda – Sair dos carris por um bago de uva

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Foto de José Luís Santos

 

O silêncio do comboio noturno que segue de Kashgar para Turpan é interrompido por sacas de plástico que se vão abrindo pelas mãos de passageiros a quem a fome os acordou do seu descanso. Já há várias horas que o cenário exterior é escuro, pois aqui o sol põe-se mais cedo e a iluminação escasseia. Batatas fritas, pão, uvas, a indispensável água, sumos com gás ou chá, favas fritas, sopas com noodles e frutas embaladas são compradas a vendedoras que fazem um movimento pendular de uma ponta à outra das muitas carruagens que esta locomotiva puxa heroicamente são as soluções possíveis para enganar o estômago.

Ao longo de um enorme e estreito corredor, somam-se vários compartimentos com quatro camas cada. São luxos de primeira classe para uns, ou necessidade básica para uma noite bem dormida para outros. Quem por aqui vagueia, vai colecionando histórias imaginárias sobre o que se vai conversando por detrás do enorme biombo que são as portas dos pequenos habitáculos. A par do mastigar, há risos, vozes mais acaloradas, brigas pontuais ou, em sentido inverso, a tranquilidade de quem já fechou os olhos e é alheio a tudo o que se desenrola em seu redor. Aos poucos, esta carruagem é como a metáfora de uma cidade, em que as luzes das casas se vão apagando aos poucos, como peças de um dominó que desmoronam em catadupa e o silêncio se vai apossando de tudo e de todos.

Os primeiros raios de sol fazem ricochete na superfície árida do deserto e trespassam as finas cortinas do comboio. Esta microcidade sobre carris vai acordando aos poucos, lentamente, espreguiçando-se, como no filme “O homem da câmara de filmar”, de Dziga Vertov. O boliço vai tomando conta deste espaço, e as portas abrem para os seus ocupantes irem num vai-e-vem à casa de banho, pôr a conversa em dia e petiscar qualquer coisa. Já é neste estado normal das coisas que se chega a Turpan.

Ao sairmos da carruagem, ainda sem colocarmos o pé na plataforma, já dois agentes de segurança nos esperavam para, uma vez mais, nos guiarem ao posto da polícia para mostrarmos a nossa identificação, sermos fotografados e preenchermos mais uns papéis para depois podermos ir às nossas vidas. Há mais que fazer por estas bandas, como visitar o minarete Emin, que, construído ainda no início do século XVIII, com os seus majestosos 44 metros, é o mais alto de toda a China. À parte deste monumento, aquilo que ressalva facilmente é a gentileza do povo local. Não obstante a vida difícil que terão, pela sua condição de uigures, são de uma boa disposição e generosidade contagiantes. Vivem da produção de uvas, tão famosas quanto apreciadas neste país, não tanto para fazer vinho, até porque a sua fé islâmica à partida não o permite, mas para secar os seus bagos tão doces e despojados de grainhas para os vender como passas.

A própria cidade é uma ilha de betão envolta num mar de vinhedos. Basta dar uma vista de olhos pelo Google em versão satélite. As latadas são em versão liliputiana, dando em alguns casos por pouco mais que a cintura dos camponeses que têm de andar a rasar o chão para as colher em plena época de vindimas. As ofertas de um ou outro cacho deste saboroso e adocicado fruto são uma constante. Dá-se com a direita sem se querer receber nada com a esquerda, e isso apura ainda mais um sabor já por si tão sublime.

As viagens valem pelas pessoas que se conhecem, com a mais-valia dos gestos simples com que somos presenteados, e estas uvas, de bagos tão finos e longos, transparentes e com uma substância tão doce, ficarão associados à hospitalidade desta gente que tão docemente sabe receber um desconhecido.

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