Opinião: O ventríloquo

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Farto de estar sozinho em casa, arranjei um boneco com quem falar. Não se trata de um robot, nem de uma boneca japonesa nem de um daqueles bonecos bilingues que vendem agora às crianças para aprenderem inglês. Trata-se de um ventríloquo. Meto-lhe a mão direita pelo pescoço e abro-lhe a boca. Ele desata numa gargalhada, o que logo me põe bem disposto. Depois falo com ele respeitosamente, porque nunca nos sobrepomos um ao outro. Claro que sou eu que lhe empresto a voz. Uma voz gutural, porque só mexo os lábios quando sou eu próprio a falar. Sou capaz de lhe emprestar a voz depois de ter aprendido alguns truques. Por exemplo, troco o “m” por um “g” melado ou coisa parecida; o “p” fica entre o “q” e o “t”; o “b” fica perto do “d”. Mas toda a gente entende o que o ventríloquo diz.
E eu sou quem melhor o entende. Mas fico espantado com o que ele diz. Parece-me por vezes que é muito mais inteligente do que eu. Não resisto então a relatar uma das minhas últimas conversas com ele:
– Porque é que te ris?
– Acho graça ao godo congo vocês andam todos. Carece que o céu vos caiu em ciga.
– Mas não sabes o que está a acontecer? Essa do vírus que anda por aí? Que nos vai contaminar e fazer com que nós contaminemos os outros? É por isso que eu não posso falar com mais ninguém e estou agora a falar contigo.
Claro que ele não sabe nem se preocupa. Não se vai contaminar a ele, e se se contaminar, não vai transmitir o virus aos outros. É certo que não o tenho lavado com alcoól-gel. Mas duvido que isso possa acontecer. Bem lhe posso falar das terríveis notícias da comunicação social, incluindo as variantes que nos ameaçam agora. O ventríloquo ri-se.
– O quê, a Ogicron?
– Sim, e as outras variantes. São dezenas de milhares contaminados todos os dias. Parece que mesmo na rua ela entra pelo nariz se não usarmos máscara.
– Cois, e quantos ficam doentes?
– Bem, parece que não ficam doentes. Às vezes têm uma espécie de gripe ou constipação.
– Mas isso não está semcre a acontecer nesta altura do ano?
– Sim, mas dantes ficavam em casa com antipiréticos à espera que o resfriado passasse. Agora vão a correr para as urgências onde morrem de frio antes que os deixem entrar, ou telefonam para a Saude24 onde ninguém os atende.
– Olha, e corque é que andam todos nessa loucura?
– Bem, para dizer a verdade, não sei bem. É a televisão que nos alerta, o Governo e as instituições internacionais que nos mandam, bem avisados pelas farmacêuticas que fazem as vacinas para nos salvarem, e são as outras pessoas que nos olham de revés se não usamos máscara nem um conjunto de documentos a atestar a nossa sanidade.
– A vossa sanidade gnental? (E desata a rir)
Eu devia zangar-me com o ventríloquo por se estar a rir de todos nós, mas não o posso levar a mal. Pura e simplesmente, ele não está preocupado. Nem se vacinou, nem tem de lidar com esse problema dos anticorpos que todos nós andamos agora a contar, contas estas tão difíceis que nem os matemáticos acertam. Nem sei se ele está vivo. Estará vivo enquanto eu lhe emprestar a mão e a voz. Mas, se não for eu, qualquer outro o poderá fazer, talvez com uma voz mais rouca por causa dos sintomas da pandemia. Mas lá que me faz pensar, isso faz ele, de certeza.

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