Opinião: Acreditar em dias melhores

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Uma recente sondagem do ICS/ ISCTE publicada no Expresso revelou que a maioria dos portugueses acredita que a próxima década será pior que a anterior. Um país mais desigual, desertificado, precário. A nível político esperam-se mais divisões e na economia mais desemprego. O próprio planeta enfrenta uma crise climática que 55% conta degradar-se. No fundo, creem que a vida estará pior daqui a 10 anos. É particularmente preocupante ler que, no quadro europeu em que nos inserimos, apenas 15% acredita que Portugal conseguirá aproximar-se dos países mais ricos.
Escrevo-vos, então, na perspetiva de quem vê Portugal do exterior, do mundo para Coimbra. Compreendo, naturalmente, as preocupações desta maioria. Tenho um filho no ensino superior público e, como qualquer pai, quero um país em que ele possa singrar, pessoal e profissionalmente. Mas para além desse meu próprio desejo de um Portugal melhor, compete-me como diplomata promover os interesses nacionais no exterior, o que implica uma constante avaliação da situação portuguesa e de como a enquadrar no estrangeiro. Ora, se reconhecemos que há ainda muito por fazer, a perspetiva e experiência do exterior permite-me uma apreciação mais realista.
Por um lado, é evidente que temos do que nos orgulhar. Visto das muitas capitais por onde passei, Portugal é um exemplo de cooperação, investimento e solidez. Se almejamos, e bem, por um futuro melhor, é devido ao reconhecimento das nossas capacidades empreendedoras, do nosso potencial em várias frentes e dos nossos feitos.
Por outro, é um excelente e profícuo exercício analisar modelos e opções governativas, económicos ou de desenvolvimento por todo o mundo. A experiência global mostra vários caminhos, que funcionam com os quais temos a aprender. O Portugal moderno e competitivo que não me cansarei de promover é uma realidade alcançável, mas sejamos humildes e saibamos aprender com as boas práticas internacionais.
É, por isso, fundamental o envolvimento das Associações e Comunidades Portuguesas pelos cinco continentes. Quem as vier a
conhecer como eu conheço, encontrará todo um mundo de portugueses qualificados, empreendedores, que fizeram vidas no estrangeiro, mas querem promover Portugal. Têm ideias, projetos, capital. Muitos querem retribuir ao país que lhes deu uma História, uma língua e uma identidade. Vejo-os diariamente.
Procuram-me, explicando como conseguiram ganhar exigentes concursos públicos internacionais, em Abidjan para o tratamento e reciclagem energética do lixo daquela capital, em Dakar para reparar e requalificar os maiores navios que navegam na África Ocidental, ou em Buenos Aires, Munique, Macau e Hong-Kong onde ocupam cargos-chave nas empresas e respetivas administrações. E dão-me sugestões concretas, querem envolver-se para que o que viram e criaram lá fora seja repetido cá dentro. Os seus sucessos podem e devem, igualmente, ser os nossos.
Uma maioria, em casa, pode de facto pressentir um futuro pior. Mas não tem de ser esse o nosso fado. Podemos juntos inverter a tendência, esse pessimismo que nos persegue. Reconheça-se o que já foi feito, os nossos pontos fortes e conquistas, e procuremos onde, e como, fazer melhor. Merecem-no todos os portugueses.

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