Opinião – 101 anos da Tomada da Bastilha

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Pelos idos de 1920, a Associação Académica encontrava-se miseravelmente instalada “n’A Bastilha”, vulgo Colégio de S. Paulo Ermita na Rua Larga. Duas salas e um corredor bafiento e esburacado que não serviam para as necessidades dos Estudantes. Esta situação contrastava com o piso superior, o Clube dos Lentes onde estavam instalados confortavelmente em sofás, e outras mordomias da altura, os mestres da Universidade. Já várias tinham sido as diligências junto da Universidade por melhores condições mas da Porta Férrea não saíam senão ecos de boas intenções.
Resolveram então, alguns estudantes mais revolucionários da época, resolver a situação pela própria mão. O apelidado Comité Central, constituído por personalidades relevantes da altura, conseguiu reunir cerca de quarenta Conjurados para tomarem de assalto o Clube dos Lentes e apoderarem-se dele. Numa das reuniões, o Comité reuniu-se em segredo na Torre do Anto (perto do actual Moelas) e agendou para o dia 1 de Dezembro o assalto, para coincidir simbolicamente com o grandioso feito nesse mesmo dia em 1640. Porém, chegou ao Comité que a Reitoria sabia dos seus planos e pretendia frustrar a tentativa com força policial e prisão Académica. Uma reunião de emergência deliberou a antecipação do assalto para a madrugada do dia 25 de Novembro, onde efectivamente este se realizou.
Os Conjurados dividiram-se em dois grupos. Um dos grupos ficaria escondido e em silêncio no rés-do-chão dentro do Colégio, à espera da hora certa para arrombarem a porta do Clube dos Lentes e um outro grupo assaltaria a Torre da Universidade. Nessa noite chovia imensamente o que ameaçava a coragem dos Conjurados. Após ultrapassado a Porta de Minerva com o auxílio de uma escada o próximo desafio era arrombar a porta medieval reforçada da Torre. No entanto, um dos presentes, tranquilo e sorridente afirmou ‘A Torre é connosco!’ e manifestou do bolso uma chave ao qual abriu o portão. Sucede-se que, na altura, a conjectura política atiçava uma solidariedade junto de todas as classes sociais para com os estudantes. Alfredo Garoto, serralheiro da Baixa, ao ser interpelado para fazer uma cópia da chave do portão, e apercebendo-se de que se tratava de algo sério, interrogou: “É contra os talassas? Se é, faço tudo de graça!”. (talassa=monárquicos).
À hora planeada o outro grupo, qual cavalo de Troia, entrou de rompante no Clube e fez-se facilmente em casa sem pouca resistência. Às 6 e 45 da manhã o rebentamento de um morteiro acordou a cidade seguindo-se o toque a repique dos sinos da Torre assim como uma girândola de 101 tiros, lançados da varanda do Clube dos Lentes tornado naquele momento sede da Associação Académica de Coimbra. Os Estudantes em festa enviaram telegrama ao Presidente da República onde lhe informaram da “aquisição” da nova sede da Associação Académica. António José de Almeida, então o sexto Presidente da República, desconhecendo das condições violentas desta aquisição, congratulou os Estudantes e legitimizou a sua nova sede para gáudio popular e troça dos Estudantes. Nessa mesma noite, deu-se um cortejo aux-flambeux da Alta até à Baixa, com direito a uma greve às aulas não autorizada.
A 25 de Novembro de 2021, pelas 22h, os Estudantes da Associação Académica de Coimbra reencenaram esse mesmo cortejo, partindo da Porta Férrea carregando archotes em chama, e clamando para que a cidade se junte a eles nas lutas que ainda pautam as actuais gerações.”

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