Opinião: Pela rota da seda – O dia mais longo

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Foto de José Luís Santos

É com alguma inquietação que começo o dia no Pamir Hotel, em Murghab, rodeado de soldados chineses que andariam por ali em exercícios militares conjuntos com os seus congéneres tajiques, com quem partilham fronteira. E também porque sabia que a próxima noite já seria passada nesse país.

Despedimo-nos de Ahmed, que passa o testemunho a outro condutor que nos levaria para o Quirguistão, rumo a Osh, se bem que eu sairia antes, em Sary Tash, para depois entrar na China. Ao fundo, uma velha estátua de Lenine parece que me acena, retribuindo-me o adeus.

São duas centenas de quilómetros de viagem, marcados pela exuberância das águas azúis e cristalinas do lago Karakul e pelos ciclistas que pedalam lenta e estoicamente no alto de Ak-Baital, a 4655 metros de altitude.

Despeço-me dos meus companheiros de viagem e volto a estar por conta própria, mas não por muito tempo. Três dias depois, na qualidade de líder de viagem do Fotoadrenalina, receberei em Kashgar um grupo de doze viajantes com que farei a China de uma ponta à outra. Recebo uma mensagem a indicar que o hotel onde todos iríamos ficar em breve deixa agora de receber estrangeiros, uma decisão que em breve perceberia que não era pontual. À procura de um transporte para Irkhestam, o posto fronteiriço com o meu país de destino, meto-me à boleia junto de umas bombas de gasolina, mas não passa por ali ninguém. Começo a ser rondado por taxistas, como abutres que pairam sobre um animal às portas da morte. Os ponteiros do relógio não perdoam, e a fronteira está quase a fechar, pelo que tive de sucumbir à ganância de quem aqui tem a faca e o queijo na mão, pagar o valor que exigem e seguir viagem.

Depois de carimbar o visto de saída da antiga república soviética, tinha um longo caminho pela frente, e a chuva, ainda que suave, persistia. Pedi boleia a camionistas chineses, que me levaram até à entrada no antigo império celeste. Todos os meus pertences foram milimetricamente inspecionados, com destaque para os livros. Enquanto sou filmado por uma agente da polícia, outra pega no meu guia de viagem e diz-me que não o poderei levar comigo. Incrédulo, perguntei o porquê.

– Você não pode levar o seu livro porque, neste mapa da China, Taiwan não aparece como sua parte integrante, pelo que lhe será confiscado! – ordenou a superiora. Nada podia fazer, e o medo de me barrarem a entrada também pesou, pelo que aceitei essa imposição, mas sem deixar de fazer um desabafo com a cara mais cínica dizendo “China…”.

A hora era tardia e não havia ninguém para partilhar táxi até à terra mais próxima, o que ficaria demasiado caro para o meu bolso, até que alguém me dá a indicação de que há alguém que também segue pelo mesmo caminho. Era um homem de meia idade de Taiwan, que teve a brilhante ideia de trazer consigo uma bandeira do seu país, o que lhe valeu um interrogatório de duas horas enquanto eu desesperava pela sua libertação. Quando saiu, havia um motorista à nossa espera, mas não estava só. No banco de trás, um homem seguiu com o seu olhar todos os nossos movimentos e parcas conversas. Era aquilo que chamamos o “Pide” de lá da zona. Quando chegámos a Wuqia, onde dormimos, ele ficou no posto da polícia.

Exausto, física e psicologicamente, entrei com o taiwanês no hotel que nos ordenaram que ficássemos, um edifício de gosto duvidoso, de dois andares cuja única vista que o quarto tinha era para a enorme bandeira chinesa que ondulava no pátio exterior. Há dias assim, que nos parecem que têm muito mais que umas míseras 24 horas, com uma injeção de vivências que nos atiram para o tapete como se arrumassem connosco num KO sem misericórdia.

 

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