Opinião: À Mesa com Portugal – do prazer ao enjoo

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Primeiro, foi timidamente, mas depois foi com a força toda que a gastronomia se apresentou. Não há estação ou época que não se vista de uma receita ou de um produto em particular e que tal não seja visto como uma oportunidade para gerar riqueza. Dos pequenos aos grandes territórios, o sabor é fio que se puxa para conseguir atrair mais visitantes.
Contudo, seria bom pensar na qualidade do que se vende. Diz-se que é “tradicional”, “que é da terra”, “típico”, “caseiro”. Mas será que é? Será que corresponde ao que devia ser? Ou é o que se consegue? Será que o que é vendido corresponde à reputação do produto? Ou no meio da confusão muito se vende mais à conta da fama do que do que do conteúdo? Na verdade, não basta dizer que é bom, há que assegurar que é bom sem se dizer à boca cheia que é o melhor do mundo. Para tal, é preciso qualificar a oferta e garantir que da parte da produção não se vende “gato por lebre”. É que atrás de rótulos fáceis e que enchem o ouvido, muito se vende.
Mas também na qualificação da oferta são precisos alguns cuidados. Assegurar a qualidade não tem que significar a uniformização da mesma. Não queremos produtos que saibam todos ao mesmo, afinal a diversidade sempre deu colorido à alimentação. Basta pensar nas receitas de família que recebem diferentes pitadas consoante as mãos. Deixar respirar o produto e a receita na diversidade que o compõe é fundamental para gerar riqueza nas comunidades. Alivia a pressão e favorece a concorrência sem pôr em causa a qualidade.
Por outro lado, a criatividade foi endeusada e emparedada entre conceitos que, de algum modo, vão ao encontro de preocupações atuais. Cria-se usando os conceitos como substrato para o sabor. Sinceramente, tenho algumas dúvidas que a criação gastronómica funcione dessa maneira. É certo que sim, precisamos balizar a nossa alimentação dentro de novos contextos que podem ser decisivos para a felicidade e bem-estar das gerações futuras, mas não me parece que a inovação gastronómica tenha de ser desenvolvida entre paredes tão estreitas.
Produtos endógenos, tradição, território, saber-fazer local. Todos estes conceitos bem amassados sempre amparados pela sustentabilidade. Pensada desta maneira a inovação culinária parece bonita e muito amiga das preocupações sociais. Mas, a questão é que a criatividade não surge desenhada por decreto. Criar um produto exige sentir o sabor, amassá-lo dentro de nós, agarrar-lhe o pulso e deixá-lo maturar até tomar existência própria.
Muitos dos produtos “criados” nos últimos anos por concursos promovidos pelos municípios já caíram no esquecimento. O que lhes faltou? Podemos pensar nisso, com certeza.
E sim, também seria útil que os municípios compreendessem que promover a gastronomia local é ter em conta mais do que um produto é olhar a identidade gastronómica e cruzá-la com os outros veios que o turismo explora. A gastronomia é sabor e o território tem que ser descoberto segundo esse princípio. Podemos vestir um município de uma receita ou produto, mas não podemos afogá-lo num sabor. De outro modo, em vez de prazer, podemos ter enjoo. Um outro lado da alimentação que o ser humano sempre soube evitar.

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