Opinião: À mesa com Portugal – Admite-se Colaborador(a)

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Ouve-se que está difícil de contratar pessoal. Pelos restaurantes, cafés e pastelarias vêem-se anúncios que mostram isso mesmo. O problema bate sempre no mesmo ponto. Profissões de desgaste a todos os níveis. Muitas horas de pé, seja na cozinha ou na sala, a envolver muito esforço físico. Lidar com o público cada vez mais exigente e menos educado, ainda a fazer valer a ideia de que o cliente tem sempre razão. Salários nem sempre a corresponder ao esforço que é realizado.
Depois, o mundo mudou. A pandemia obrigou-nos a parar e deu-nos a conhecer o que, em muitas situações, andávamos a perder. Muitos foram os que quiseram mudar de ritmo e optar por uma vida em que a família e o descanso tenham espaço. Em alguns casos, nem o amor à profissão foi suficiente para afastar a vontade de conquista de qualidade de vida.
Se este é um problema que se vive em vários países da Europa, pena é que não se tenha aproveitado a pandemia para uma reflexão sobre os problemas que afetam este setor. Em Portugal, teria sido muito bom que esta área de trabalho e gestão, que mobiliza tantos empregos diretos e indiretos, se tivesse organizado numa plataforma comum em que fosse reivindicado maior atenção aos problemas que o afetam.
Podemos começar por falar da multiplicidade de impostos que são aplicados a todos os que têm um negócio. Não se podem pagar bons salários quando as empresas são sugadas até ao tutano em contribuições oficiais e oficiosas, pois convém não esquecer a quantidade de certificações que certificam o que já está certificado e cuja prestação de serviços tem de ser paga. Mas sim, não se podem pagar salários justos quando as empresas são espremidas até não terem mais nada para dar. Para um setor que tanto emprega, pena é que não existam propostas de alternativas às obrigações a que estão sujeitas.
Depois, o terrível hábito que temos de pouco valorizar o que comemos. Medimos o preço de uma refeição ou de um simples produto como se fosse feito de plástico e à máquina. Ridículo o preço de algumas refeições e produtos. Como conseguir orçamento para pagamento justo de salários quando o dinheiro que entra em caixa é sempre pensado num baixo valor? Os agricultores vendem a baixo preço, os pequenos restaurantes têm as refeições quase a saldo, as pastelarias esquecem o valor do trabalho da doçaria artesanal. A desvalorização do que comemos por oposição ao que vestimos, calçamos, ostentamos, faz com que profissões tão importantes como cozinheiro, pasteleiro, empregado de restaurante, sejam mal remuneradas.
Pergunto, até quando? Sim, porque é preciso perceber que se anuncia uma nova geração de profissionais de hotelaria que é elucidada, esclarecida, ambiciosa e muito criativa. Querem ter a sua profissão, mas também usufruir da família. Querem trabalhar com afinco, mas sem cair num volume insuportável de horas. Querem “servir” os outros, mas sentindo o respeito de quem dá o melhor de si quando todos os outros estão a descansar.
Espero que saibam criar as pontes que as gerações passadas não souberam construir. Espero que tenham uma palavra a dizer nas associações que os representam e que possam mostrar o peso que têm na economia e como é justo uma mudança. Espero que quem nos governe acorde para a importância que a hotelaria e a restauração têm. A falta de boa representatividade, neste momento, é mesmo o grande calcanhar de Aquiles. Há que dar a volta e abanar as estruturas.

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