Opinião: A cidade que marca mas não tem marca – parte II

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Coimbra vive uma crise de identidade. Analisei com profundidade as causas deste problema identitário no texto de opinião do mês passado (disponível para consulta no website do Diário As Beiras). Neste artigo, irei abordar como reinventar a identidade e a marca Coimbra.
Começo por salientar que Coimbra mantém, pelo menos, três fatores absolutamente distintivos face a cidades comparáveis. Estes fatores, que designo por “Cidade Pioneira”, “Cidade da Lusofonia” e “Cidade Sustentável”, poderão ser dinamizados para reafirmar Coimbra e alavancar um novo ciclo de desenvolvimento.
Coimbra é, acima de tudo, uma cidade Pioneira. Ao longo dos séculos e até aos dias de hoje tem estado constantemente na vanguarda, nas mais diversas áreas. De seguida apresento alguns exemplos de relevo (que não constituem de forma alguma uma lista exaustiva).
Coimbra está na origem de Portugal. Do Condado de Coimbra, entregue ao Conde D. Henrique tal como o Condado Portucalense, tornou-se a 1.ª capital do Reino de Portugal, por opção direta de D. Afonso Henriques, que por cá decidiu viver, criar família e morrer. Para além da primeira dinastia também a segunda dinastia tem a marca de Coimbra pois, em 1385, D. João I é jurado Rei de Portugal, na Sala dos Capelos, dando início à segunda dinastia (de Avis). Não houvesse Coimbra e as “gentes” da Beira e talvez não houvesse Portugal.
Coimbra é pioneira no conhecimento e na inovação. Não apenas por se achar aqui a 1ª universidade do país (a UC), mas por tudo o que isso implica. Desde logo, o surgimento do 1º inventor português, Pedro Nunes – matemático e cosmógrafo-mor do Reino, criou vários instrumentos, de que se destaca o Nónio que veio reduzir a margem de erro da navegação marítima. Mais tarde, a Reforma Pombalina levou à criação do mais antigo museu português – o Gabinete de História Natural – e de novas faculdades e métodos que estabeleceram as bases para o ensino e a investigação científica moderna em Portugal. Foi também na UC que se formou, doutorou, e iniciou atividade letiva António Egas Moniz, o 1.º Nobel português e (ainda) o único em áreas científicas. O 1.º computador pessoal português – ENER1000 – foi também criado na UC, em 1981, e produzido na Figueira da Foz. A 1.ª e mais bem-sucedida incubadora de empresas de base tecnológica do país é também um produto de Coimbra – a Incubadora do Instituto Pedro Nunes. Neste vibrante ecossistema empreendedor emergiu a Feedzai, que é o 1.º “unicórnio” tecnológico verdadeiramente português (por ser a única deste tipo de empresas, com fundadores e liderança portuguesa, que está sedeada em Portugal. Onde? Em Coimbra!). Assim, mais até do que “cidade do conhecimento”, Coimbra é uma cidade da inovação, uma cidade pioneira, que consegue aplicar esse conhecimento para a sua própria transformação e para o desenvolvimento de Portugal.
Na área da saúde não faltam exemplos de como o pioneirismo de Coimbra abriu novas fronteiras à medicina em Portugal – desde o 1.º transplante de um órgão vital em Portugal (um rim, em 1969, pelo Professor Linhares Furtado), às 1as consultas de telemedicina (na área da Cardiologia Pediátrica entre Coimbra e Leiria, em 1998 ), à investigação que contribuiu para a criação do 1.º medicamento de patente portuguesa (Zebinix, da Bial), até às mais recentes inovações em cirurgia oftalmológica e do ICNAS no desenvolvimento do novo ciclotrão.
Coimbra é também pioneira em inúmeras questões societais de relevo para Portugal. É de salientar o forte contributo de personalidades do Direito para a abolição total da pena de morte em Portugal, que veio a acontecer em 1867, e mais recentemente para a Constituição da República Portuguesa. Foi também na UC que se formou a 1ª mulher licenciada em Portugal – Domitila de Carvalho, em Matemática, em 1894. E o que dizer da visão de Bissaya Barreto e da sua vastíssima obra social, que tem uma forte expressão ainda nos dias de hoje?
Na Cultura, nas Artes, no Património, exemplos de pioneirismo não faltam. Muitos dos principais escritores portugueses por cá passaram. A Guitarra de Coimbra é um instrumento musical único, com caixa e braço diferente da de Lisboa, o que lhe dá uma sonoridade mais suave e harmoniosa. A Torre da Universidade é uma construção absolutamente inovadora para a época e um raro protótipo de uma torre campanária civil.
Coimbra é pioneira até no desporto (hoje em dia pelas ruas da amargura). Entre outros exemplos, saliento que a Académica de Coimbra venceu a 1.ª edição da Taça de Portugal em futebol masculino na época 1938/39 e que o Sport Clube Conimbricense venceu a 1ª edição do campeonato de basquetebol na época 1932/33.
No que diz respeito ao pilar da Lusofonia, a ligação histórica de Coimbra aos diversos países e comunidades de língua oficial portuguesa é um fator distintivo para promover a atração e o bom acolhimento de cidadãos do “mundo português”.
Coimbra é também única pelo seu binómio urbano-rural, ao longo do Rio Mondego. Nenhum outro município comparável possui cumulativamente tamanha capacidade na economia do conhecimento e na produção agrícola. Esta conjugação de fatores proporciona a Coimbra a afirmação como uma cidade-região verdadeiramente sustentável.
Para ser bem-sucedida, a reinvenção da identidade e da marca Coimbra terá de ser alicerçada em fatores absolutamente diferenciadores (como os que elenquei acima) e do envolvimento ativo e estrategicamente alinhado das forças vivas da cidade. Coimbra tem dentro de si tudo o que precisa para se regenerar e reafirmar. Agora, é tempo de conjugar esforços e pôr mãos à obra!

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