Opinião: A Carreira Diplomática

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O mais exigente concurso de acesso da função pública portuguesa, aberto a qualquer licenciatura – provas gratuitas, públicas, disponíveis online e temos até nas fileiras um médico, um bioquímico e um astrofísico! –, permite tentar o acesso à Carreira Diplomática.

Da definição clássica de diplomacia, um instrumento da política externa para estabelecer os contactos entre Estados empregando intermediários mutuamente reconhecidos, sublinho o que na minha experiência de 23 anos de Necessidades é o traço mais importante de um diplomata: credibilidade. Conseguir captar a confiança de com quem estamos a negociar.

Esta arte, aliada à aplicação diária dos conceitos de liderança, comunicação, adaptação e organização tece um admirável fio condutor entre os primeiros mensageiros homéricos e a ação moderna que os diplomatas portugueses lideram na ONU, UE ou CPLP, passando pelo Tratado de Windsor, o período pós-Restauração ou, no séc. XX, o reconhecimento internacional da República e a consolidação da nossa democracia pós-1974, rumo à Conferência dos Oceanos 2022.

Quero ser concreto e pessoal, no que se refere às lacunas que ainda nos marcam nesta honrosa missão. Ser diplomata é, ipso facto, optar por um modo de vida nómada, por um novo horizonte e recomeço a cada x anos, arrastando um agregado familiar. Identifico, claramente, uma enorme margem de melhoria na avaliação de desempenho a que somos sujeitos. Costumo dizer que somos pagos pelo contribuinte português e a ele devemos lealdade e prestação de contas. Mas o elo mais frágil da longa cadeia histórica que referi, aqueles a quem mais sacrifícios são exigidos sem recompensa, aqueles que quase sempre em silêncio se resignam a uma antiquada lógica “2 pelo preço de 1”, são as nossas famílias.

Por mares nunca dantes navegados, foram os portugueses marinheiros e missionários, mas também emissários e diplomatas. Pelas suas mãos se reconheceram imperadores, reis e papas, se geriram impérios e independências, se declararam guerras e se firmou a paz. Se os seus méritos e feitos são hoje, por todo o mundo, reconhecidos, também o devemos às suas inabaláveis famílias.

É inexplicável que, em 2021, que aqueles a quem devemos o apoio fundamental para uma carreira de sucesso, os nossos cônjuges, enfrentem ainda dificuldades medievais em garantir uma carreira contributiva estável e uma reforma mínima. Ou um seguro de saúde cabal em Posto. Como explicar que as despesas das escolas dos nossos filhos menores, no estrangeiro porque um dos pais está ao serviço de Portugal, não sejam asseguradas?

A Carreira, dinamizada pelos esforços das Associações Sindical e a das Famílias, tem conseguido avançar, de forma lenta, mas quase sempre consistente, na resolução destas questões. Permitindo, assim, que a nossa diplomacia preserve o seu poder de atração entre os melhores dos melhores das novas gerações. Desafio os meus jovens leitores, aliás, a se inscreverem no concurso de acesso que abrirá, previsivelmente, em dezembro. Das razões pelas quais esta pode ser a melhor decisão da vossa vida vos falarei numa próxima crónica.

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