Opinião – Mitografias, certezas e insónias

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Seja ele o passado, o presente ou um idealizado futuro, não podemos viver sem ficções do real que recorrem a mitos. A definição de mito – os relatos fantásticos que deram significado à vida quotidiana da Grécia antiga serão sempre o seu modelo primordial – é complexa e cheia de sentidos; todavia, para o que aqui importa, destaco dois que constam do Dicionário Houaiss: «a construção mental de algo idealizado» e, a ela ligado, «um valor social ou moral (…) decisivo para o comportamento dos grupos humanos em determinada época». O mito é, pois, indispensável para o funcionamento das sociedades humanas, ao participar como peça nuclear na construção da sua coerência e dos diferentes sentidos de pertença de quem as habita. As mitografias, por sua vez, juntam constelações de mitos, com eles compondo modos de representar o mundo.

Este processo pode ser libertador, mas também asfixiante. Os mitos que integramos no dia a dia, comportem eles ideias exemplares, personalidades e heróis que admiramos, ou momentos da história que achamos inspiradores, podem funcionar como agentes da emancipação, ajudando-nos a superar a ausência de horizontes, desbloqueando a esperança e a incapacidade para agir fora do ciclo da repetição. Mas podem igualmente funcionar como amarras que nos prendem ao passado e distanciam do presente. É nesta segunda dimensão que se situa a tendência, que muitos partilhamos, de erguer mitos durante a juventude, e, ainda que a experiência acumulada comprove a sua fragilidade, os seus limites ou mesmo a sua falência, depois rejeitar abandoná-los, ou sequer colocá-los em plano secundário, pois cremos que fazê-lo abalaria as nossas certezas.

Em «Melancolia de Esquerda», ensaio de Enzo Traverso sobre a relação entre história, memória e a construção do ativismo a partir do século XIX onde o autor reconhece a dimensão dinâmica de muitos dos mitos que integram a tradição política socialista, aborda-se esse encontro com momentos, figuras ou ideias que a dada altura funcionaram como munição para o combate por um mundo melhor. Mas vinca-se também que podem perder esse lugar quando quem reconhece o seu papel não os adapta à mudança dos tempos e do conhecimento. Um exemplo pode ser encontrado junto de homens e mulheres para os quais o modelo político que em novembro de 1989 ruiu em conjunto com o Muro de Berlim permanece válido e desejável, continuando, com medo que o chão lhes fuja de baixo dos pés, a mitificar ideias, regimes ou figuras cuja falência a história já se encarregou de ler, dando-lhes um novo sentido ou retirando-lhes a centralidade.

Aconteceu comigo um episódio ilustrativo deste medo que bloqueia. Quando num curso recomendei um dos livros de história mais pungentes e perturbantes que alguma vez li – «Sussurros», de Orlando Figes, onde se traça, recorrendo a centenas de testemunhos de pessoas de diferentes gerações, uma história da União Soviética que não recorre apenas aos registos oficiais –, encontrei quem se recusasse a lê-lo alegando recear ter de emendar o seu passado. Como vivo em permanente contacto intergeracional, com frequência encontro pessoas, algumas até relativamente jovens, que recusam revisitar de forma crítica aquilo em que um dia acreditaram, ou de que gostaram, por não quererem, como já escutei, «perder a coerência». Pergunto-me para que servirá essa coerência ilusória. Talvez apazigue espíritos e evite insónias, mas limita uma vida imersa no seu tempo.

 

Rui Bebiano escreve ao sábado, quinzenalmente

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