Opinião: Aconteceu em Coimbra

Posted by

A nossa cidade é um manto de defeitos e de virtudes onde raras vezes nos apercebemos das luminescências culturais que emergem das tardes anódinas. Não as vemos. Andamos tombados sobre nós próprios. Levantamos a cabeça, ora olhando os passos do chão ora olhando para o alto da neblina, onde se cruzam as saudades de um passado do qual não demos conta em devido tempo, com um futuro que jamais saberemos se acontecerá. Todavia, o mundo continua a pulsar nos veios do presente. O sol nasce cedo sobre as janelas, ainda que a maioria da plateia esteja ainda a dormir.
Aconteceu no domingo. Um livro brotou. Quando um livro brota, há um nascimento a assinalar. Mas a sociedade há muito que deixou de festejar a nova vida. As páginas necrológicas dos jornais assinalam as partidas. É por isso que o faço aqui, em contracorrente. Uma antologia marcando vinte anos de uma carreira de um escritor é um ato próximo da insensatez. Porque são vinte anos de uma missão quase sempre tardiamente reconhecida, de noites a fio à procura da palavra única e sem arestas, de um fechamento incompreendido. Uma loucura com a qual, por solidariedade, me identifico também.
João Rasteiro reuniu em quatrocentas páginas alguns poemas que podemos encontrar nos seus quase vinte livros e ainda em textos publicados em revistas de diversos países. Chamou-lhe “Ofício”, e a capa da antologia tem a cor do sangue. Talvez a escolha da cor seja uma provocação semiótica vinda da corrente surrealista que lhe ficou tatuada. Talvez aquela série da sua poesia que inicia sempre com um ponto final descenda daí também. Licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Universidade de Coimbra, João Rasteiro é um dos escritores conimbricenses que mais tem publicado. Ele diz desassombradamente que “a poesia arquiteta as criaturas pasmadas” e fala do “verbo brotando para dentro”, provocando em nós o caos da descoberta. Desconstruindo ideias para que seja nossa a construção do sentido.
Naquele domingo, dez de outubro do ano da Graça de 2021, na mística Quinta das Lágrimas, o chão arreou feliz com o peso de tanta gente que esteve presente no nascimento do “Ofício”, de João Rasteiro. A Valter Hugo Mãe e a Graça Capinha coube a apresentação da obra. Dois nomes incontornáveis do ofício literário. Ambos falando apaixonadamente do talento do escritor.
Não esteve a estrutura que dirige a Candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura, não esteve representada a Casa da Escrita, onde João Rasteiro trabalha e empresta o seu conhecimento para manter de pé um projeto maltratado pelo poder político ainda vigente, não esteve um só representante do Município de Coimbra, que durante os últimos oito anos se tornou confrangedoramente nocivo para a criação cultural. Estes ficaram de persiana corrida, escondidos da luz, vigiando a penumbra, calibrando-se de vazio em vazio.
Felizmente, há os poetas.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.