Opinião: À mesa com Portugal – Macaquinhos de imitação

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Outono maravilhoso. Nem nos podemos queixar muito. Sol lindo a dar mais cor às cores intensas de Outono. Frio e chuva, nem por isso. Temperaturas a fazer lembrar um Verão tardio. E a natureza tão disponível para nós e nós só sabemos ir ao supermercado e retirar das prateleiras os mesmos produtos de sempre. Aqueles que comemos de Inverno e de Verão, pois a indústria, através de sistemas de produção e de conservação, encarregou-se de assegurar que nunca faltam as mesmas maçãs, as mesmas peras, as mesmas frutas da moda.
Pois, acho que nos tornámos cãezinhos amestrados lindos de morrer a cumprir o ritual como se estivéssemos num qualquer anúncio comercial dos frescos. E… perdemos a nossa curiosidade, a ousadia e capacidade de ir por aí e descobrir pelo que os olhos nos dizem e o nariz nos aponta. A quantidade de fruta que encontro disponível quando ando a fazer trabalho de campo pelas nossas Beiras dariam para alimentar comunidades inteiras e fazer felizes várias famílias. Posso dizer que a minha família se tem regalado.
Medronheiros não faltam pelas nossas Serras, e em redor de Coimbra são muitos os sítios onde eles abundam. De tons amarelados e alaranjados, sabemos que temos que ser moderados na ingestão e, sobretudo, não ceder à tentação quando eles já estão muito maduros, mas são muitos mesmos os que estão disponíveis para nós. Confesso que o aroma dos medronhos me faz sentir o Outono de outra maneira, faz-me sentir o tempo.
Mas e as maçãs? Ui, tantas, mas tantas a cobrir o chão nos caminhos, os regatos e os ribeiros. E bem cheirosas que são. Larguem as do costume e aventurem-se à descoberta! Deem uma oportunidade aquelas que enchem as árvores por aí e que ninguém as apanha porque… não as conhecem, são pequenas, aqui e ali têm umas pontas negras. Mas cheiram que regalam, cada espécie sabe de forma diferente, e a pele assume tons tão bonitos. Sintam o prazer de comer uma maçã e não o hábito de comer uma maçã. Há uma diferença entre um e outro. No primeiro estão a sentir a fruta e a perceber porque ao longo da nossa história da alimentação escolhemos as maçãs como uma das nossas frutas de eleição. No segundo, estamos a repetir um hábito dito “saudável”, mas sem sabor.
E as castanhas? Bem, nem digo nada. Ouriços a cobrir o chão, castanhas já soltas. São mais pequenas algumas, outras um bocadinhos mais rijas, mas outras são maravilhosas e só a experiência de andar a apanhá-las… Na verdade, nos últimos tempos encho os bolsos com castanhas que recolho e trago para casa. A família não se tem queixado e recebo menos reclamações do que os vendedores que as venderam congeladas por um preço bem alto.
Os diospiros… gosto tanto, tanto, que quando como um não consigo respirar, torno-me mais que gulosa e, claro, sempre aos pares. As árvores estão cheias e nem sempre o dono ou dona do diospireiro consegue consumir toda a produção. Aí os laços de vizinhança e comunitários funcionam da melhor maneira. Pelo menos, não caem e apodrecem ali abandonados como se todo o ciclo tivesse sido em vão.
Tornamo-nos macaquinhos de imitação e perdemos a nossa faceta recolectora. Certo é que a natureza está aí disponível, muito melhor que qualquer supermercado. Já nós, ficámos indisponíveis para a natureza, apenas aceitamos aceitar o que ela tem para nós, mas só por marcação. Como quando vamos, saudáveis e rurais, participar numa caminhada ou descoberta de cogumelos. Olhar e ver, sentir e cheirar, provar, é preciso.

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