Opinião: À Mesa com Portugal – Boas intenções

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A história da domesticação dos animais reflete séculos e séculos de tortura. Não deixa de ser tal facto, uma tortura para todos nós. Os que querem comer carne e sentem que é difícil viver sem este alimento e os que já não comem, mas pensam todos os dias no sofrimento dos animais.
Convém não colocar a verdade nua e crua debaixo do tapete. Sim, os animais sofrem com a antecipação da morte quando vão para o matadouro. Os vitelos choram quando são separados das mães. Os cabritos e os borregos são animais pequenos que são levados para o matadouro. Os leitões? Bom, acho que não preciso falar sobre isso…
Sim, a história da domesticação remete-nos para uma situação de violência extrema desde o início. Os mais desobedientes eram os primeiros a enfrentar o sacrifício como forma de exemplo. Marcas físicas como a castração e outros trabalhos nada humanos amenizaram a revolta animal, baixaram a crista e amedrontaram o suficiente para manter os animais submissos. Como já passou muito tempo desde o início da domesticação esquecemo-nos do que isso podia significar, aceitámos como normal, dizemos “sempre foi assim”. Mas a verdade é que nem sempre foi assim. E talvez por isso, o vegetarianismo não seja assim uma tendência tão recente quanto pensamos, mas acompanhe a humanidade desde há muito tempo atrás.
Mas, no meio de tudo isto, às vezes salta-me o pensamento para as questões que se escondem por detrás do comer carne, coisa vista como quase profana e pecaminosa no santuário das boas intenções dos dias de hoje. Diaboliza-se quem come carne. Curiosamente, ninguém pensa na quantidade de peixes que são mortos de forma indecente apenas porque as redes são de arrasto e quando arrastam trazem tudo atrás de si. Os grandes, os pequenos, os que são vendáveis e entram na consumo e os que são desperdício. Parece que comer peixe é diferente de comer carne. Será?
No caso dos peixes que, habitualmente, são comidos à posta porque são de grande porte tenho a certeza de que nem sempre se pensa o tempo que demorou a criar um animal daquele tamanho, as dificuldades que teve de enfrentar, o quanto teve que sobreviver. É tratado apenas como comida, “à posta”, desenraizado do seu lugar natural. Até parece que sempre estiveram no mercado ou na cozinha descaraterizados da sua função no mundo marinho.
Mas pior do que isso, é aceitação natural do resto de comida que fica no prato e que parece que até é de bom tom social fazê-lo. Deixa-se um bocado de carne ou de peixe na borda do prato sabendo que irá acabar os seus dias no lixo. Raramente se pensa que aquele bocado fez parte de um animal com sangue a correr nas veias, com um coração a bater, com sentimentos, ainda que primários. Esqueceu-se que aquele bocado de carne já foi vida e que, em tempos, aceitou-se o seu sacrifício com o objetivo de alimentar o homem, matar-lhe a fome, saciar-lhe o apetite de modo a empreendimentos maiores. E isso sim, é sinal de inversão de valores.
A evolução alimentar do homem é um percurso de várias opções. E, no meio de tudo isto, convém perceber o que ganhámos, o que perdemos, o que soubemos transformar. Pensar no sofrimento dos animais é mais do que legítimo, é sinal da humanidade que nos carateriza, da empatia para com o outro, mesmo quando o outro é sombra cristalizada de um ser dito submisso. No entanto, há que pensar que, mais do que falar das boas intenções, há que praticá-las.
Olhar com lucidez as várias pontas descansa-nos a alma.

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