Opinião: À espera de um grande líder

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Acabou a campanha eleitoral com grande euforia e agora temos um leilão orçamental gerido com grande dramatismo. Não é, todavia, este folclore que me move e que motiva esta crónica. Pelo contrário, hoje inspiro-me nos nossos empresários e na forma como se gere uma empresa, para entender os impactos deste cenário na nossa economia e no nosso futuro.
Quando uma empresa pede um empréstimo, preocupa-se em fazer um plano de negócios, calcula os indicadores de rendibilidade e o tempo necessário para pagar o empréstimo e recuperar o investimento. Estes empréstimos, normalmente, não se contraem para mudar fechaduras ou o mobiliário da sala de reuniões. Eles costumam ter como destino a compra de novos equipamentos, a formação do pessoal, a pesquisa e o desenvolvimento ou a preparação da entrada em novos mercados, entre outros. Sabem… o investimento tem que gerar fundos para pagar os empréstimos e… preferencialmente… gerar algum lucro… alguma mais-valia. As empresas trabalham para melhorar a sua competitividade e aumentar a capacidade de gerar riqueza.
Voltando ao orçamento e ao PRR, fomos ouvindo de tudo: que 60% dos fundos já estavam consignados, e que as autarquias disporiam de fundos “sem limites” e que era hora de aproveitar. Entretanto, não ouvimos uma palavra sobre investimentos reprodutivos, que melhorem a capacidade de aumentar a riqueza do país e mais tarde permitam pagar os empréstimos contraídos. Crescimento económico, produção de riqueza e convergência com a EU estiveram ausentes do discurso político. Não ouvimos falar de um país moderno, inclusivo, capaz de ombrear com os seus parceiros europeus. Aparentemente, a visão (que nunca entendi) e o grande salto de António Costa Silva correm o risco de se materializarem em maternidades, rotundas e passadiços. Investimentos estruturantes, para além do hidrogénio que, entretanto, saiu dos radares, ou um aumento da capacidade exportadora de bens e serviços, permanecem no segredo dos Deuses. Até o turismo, o nosso principal motor do crescimento, tem merecido mais censuras que apoios e uma verdadeira modernização. Na verdade, as projeções de crescimento para a economia portuguesa mostram que em 2023, 2/3 do crescimento serão garantidos pela simples entrada de fundos. Em contrapartida, em 2026, o nosso crescimento será inferior a 2% e atrás de nós só teremos Espanha e Grécia, pelas razões que bem conhecemos. Ou seja, a Bazuca acabou transformada numa fisga. Mais uma vez encheu-nos o olho e resolveu os problemas de curto prazo, mas deixou a economia igualmente estagnada e viciada na entrada de fundos. Pior ainda, adivinhem como vamos pagar estes empréstimos e a enorme divida pública que, entretanto, se gerou? Vamos continuar a pagar os combustíveis e a eletricidade a estes preços proibitivos e a fiscalidade continuará a apertar-nos desta forma sufocante que parece anestesiar-nos.
Numa das minhas crónicas anteriores falei da falta de uma visão, na falta de uma estratégia e na falta de uma liderança que pudessem promover um bom aproveitamento destes fundos e desta “oportunidade única”, talvez a última, para fazer da nossa uma economia competitiva e que pudesse crescer como as economias de leste que, entretanto, já nos ultrapassaram ou estão em vias de nos ultrapassar. Comparar a nossa performance com a destes países é simplesmente desmoralizador e não se entende a nossa apatia face a mais de 20 anos em que não convergimos com a Europa. Eu não me oponho a que se distribuam computadores, livros, bicicletas e outro tipo de prebendas que fazem de nós um povo de mão estendida. Todavia, o que eu gostaria era de um país que gerasse riqueza, que a fizesse chegar às pessoas, e que todos tivéssemos dinheiro para viver com dignidade e fazer as nossas escolhas. É cansativo ver um país que alimenta a pobreza em vez de acabar com ela.
As empresas mais icónicas, as inovações mais ousadas tiveram sempre associadas a elas um nome, um grande líder. Vamos também continuar à espera de um grande líder que faça de nós um grande povo e do nosso, um grande país.

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