Opinião: Um Reitor magnífico

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Amanhã (quinta-feira, dia 16 ), pelas 18 horas, vai ser apresentado, no Auditório da Reitoria da Universidade, um livro intitulado “Vinte Meses de Inferno – o meu Reitorado na Universidade de Coimbra ( 1970-1971 )”, que dá a conhecer memórias do Professor José Gouveia Monteiro.
Quem viveu de perto a chamada “Crise Académica de 1969”, sabe bem quem foi José Gouveia Monteiro, que assumiu a Reitoria da Universidade de Coimbra nesse período conturbado em que os estudantes ousaram enfrentar a Ditadura.
Nascido no Caramulo em 1922, José Gouveia Monteiro licenciou-se na Faculdade de Medicina de Coimbra em 1946, com 19 valores, obtendo igual classificação no doutoramento pela mesma Faculdade, em 1952.
Para além de Professor catedrático prestigiado, era um médico distinto. Foi Presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia e viria a presidir também ao Conselho Directivo da Faculdade de Medicina.
A 17 de Abril de 1969, quando o então Presidente da República, Américo Tomás, vem inaugurar o Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências, o uso da palavra é negado ao então Presidente da Associação Académica de Coimbra, Alberto Martins. Os colegas insurgem-se e Tomás e os vários ministros que o acompanham abandonam o edifício debaixo de um coro de protestos, fazendo os estudantes a sua própria inauguração. Nesse mesmo dia, Alberto Martins e outros dirigentes associativos são presos pela PIDE (vindo depois a ser incorporados no Exército e espalhados por quartéis de todo o País, onde exerceram um trabalho de politização de militares do quadro que terá tido alguma influência na Revolução de 25 de Abril de 1974 ).
O então Ministro da Educação, José Hermano Saraiva, faz uma desastrosa intervenção na RTP, ameaçando os estudantes de Coimbra – o que funcionou como “gasolina em fogueira”, contribuindo para que uma impressionante Assembleia Magna, nos jardins da Associação Académica, decretasse luto académico e greve aos exames.
Marcelo Caetano, que poucos meses antes sucedera a Salazar como Presidente do Conselho de Ministros, entende que teria de fazer mudanças profundas para tentar “curar as feridas” que alastravam no seio da Academia.
Assim, para substituir Saraiva na pasta da Educação, convida um prestigiado Professor da Universidade de Coimbra, José Veiga Simão. E este, por seu turno, desafia José Gouveia Monteiro para assumir a Reitoria da Universidade, sabendo tratar-se de um homem não alinhado com o regime e com um excelente relacionamento com os estudantes.
O que se passou depois, em plena “Primavera Marcelista”, foram “vinte meses de Inferno” para Gouveia Monteiro, como ele próprio assume no excerto das memórias escolhido para título do livro que agora vai ser lançado. Memórias que ele estava a escrever quando doença súbita o levou, prematuramente, em 1994.
Vou ler este livro com imenso interesse, pois sei como foi difícil ao Professor José Gouveia Monteiro desempenhar as espinhosas funções que teve a coragem de aceitar.
Tal como sei que, nesse período curto, e apesar de todas as enormes dificuldades, para além de Magnífico Reitor, ele conseguiu ser também um Reitor magnífico!

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