Opinião – Outra vez a história de um camelo

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Escrevi uma vez um artigo em que perguntava “qual é coisa, qual é ela, tem duas bossas e não é um camelo?”. A resposta era dada mais à frente, justificando que era Portugal quem tinha as duas protuberâncias – Lisboa e Porto – e que na cova ficava todo o resto do País. Um território vivendo na cova das migalhas sobrantes, uma cova asfixiada como um deserto árido, fastidioso e estéril, por onde passam os espólios do Estado na travessia entre o sul e o norte.
Quem se desloca pelo interior do País, e mesmo por uma parte do litoral, fica incomodado com o esquecimento e a escassez de oportunidades. É claro que de pouco vale – tal como tenho experimentado – argumentar com o poder estabelecido na capital. Isto porque sinto sempre que os das bossas têm por nós, os da cova esquecida, tolerada e racionada, o temor de que queiramos reclamar uma fatia do seu imenso bolo. Esta é uma das razões por que me afirmo regionalista de corpo e alma.
Na última década, Portugal perdeu 2% da população, ao passo que a Área Metropolitana de Lisboa cresceu. E continuará a crescer. A habitação atingiu preços impraticáveis enquanto o interior tem ficado devoluto. Para o excesso de carros, promete-se mais vias, mais estradas, mais pontes, mais estacionamento, mais alargamento do metro e muito, mas mesmo muito dinheiro. Na cova do País, imaginem, ficamos a assistir a este teatro desenfreado, sem termos quem vire a mesa. Ressalvo a coragem de alguns deputados, bem como da ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa.
Apesar de a Constituição da República afirmar que todos os portugueses têm os mesmos direitos, esse parece ser, em matéria territorial, um verbo de encher. O Presidente da República vem amiúde visitar o vazio entre as duas bossas, é verdade. Mas pôs-se mudo quando os juízes do Tribunal Constitucional se referiram à possibilidade de transferência do serviço público para Coimbra como “desprestigiante”, com uma “carga simbólica negativa”, “degradando a perceção pública da autoridade, autonomia e relevância do órgão”.
Gostaria de aqui, com esta arma da escrita, enfrentar estes juízes e de dizer-lhes que estão enganados. Nós não achamos que a perceção pública fique degradada caso o Tribunal Constitucional se instale em Coimbra. Nós também somos a perceção pública. E nós, seja Coimbra, Beja, Guarda, Viseu, Pampilhosa da Serra, ou outro qualquer lugar de Portugal, temos a dignidade que os senhores juízes do Tribunal Constitucional não encontram. Ofenderam-nos e merecemos um pedido de desculpas.
Só por extremo mau-gosto terão referido que preferem manter-se “num edifício histórico e com dignidade compaginável com a sua função”. É um desconhecimento gritante de tantos edifícios maravilhosos existentes não apenas em Coimbra como em todo o País. Mas, mais, parece ser um comodismo intolerável.
Gostaria de dizer-lhes, respeitosamente, que acho grotesco o argumento de que a capital do País é a sede tradicional dos órgãos de soberania. Esse argumento apenas serve Lisboa. Há por toda a Europa excelentes exemplos de países que foram fixando os centros de decisão fora das respetivas capitais. Veja-se os casos da Alemanha, Holanda, Itália, Suécia, Finlândia, República Checa ou Malta, apenas para dar alguns exemplos.
Coimbra, caso não saibam, ou pretendam ignorar, está estreitamente ligada à fundação da nacionalidade, já que o primeiro rei, D. Afonso Henriques, a converteu em capital do reino e assim se manteve durante os séculos XII e XIII. Foi aqui que nasceram praticamente todos os reis da primeira dinastia. Coimbra foi cenário de acontecimentos determinantes da vida da nação.
Já agora, se temos feito avanços em matérias de quotas e igualdade de género, há que lutar ainda pela igualdade territorial nos órgãos públicos, para que as bossas não tapem as vistas ao País.

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