Opinião: Chips precisam-se!

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O mercado mostrou, nos tempos recentes, uma grande dificuldade no fornecimento de todo o tipo de equipamento que integre componentes eletrónicos. O fornecimento destes componentes tem levado ao quase desespero de muitas empresas que deles dependem e, com eles, dos utilizadores finais de tecnologia.
Os componentes eletrónicos estão hoje na base de muitos mais equipamentos do que pensamos, dos telemóveis aos automóveis, dos computadores às consolas de jogos, mas também a eletrodomésticos e a muitos sistemas de domótica. Com o teletrabalho e o ensino à distância veio a corrida a computadores, consolas, obras de construção, equipamentos de fitness e muitos outros. E tudo isto trouxe necessidades acrescidas que conduziram a atrasos significativos no fornecimento de vários produtos (veja-se o caso dos PC portáteis, das webcam, etc.).
A escassez destes componentes resulta de diversos fatores, desde logo dos vários confinamentos que conduziram ao encerramento de fábricas em todo o mundo devido à falta de mão-de-obra. Estas falhas foram particularmente graves no continente asiático, região do globo onde são maioritariamente produzidos estes componentes (China, Taiwan, Malásia) e prejudicaram fortemente as cadeias de produção da indústria eletrónica. E, à suspensão da produção, juntaram-se ainda outros fatores imprevistos que mostram estas fragilidades como um navio encalhado no Canal do Suez, um tremor de terra no Japão ou um nevão no Texas.
Interrogamo-nos porque são tão poucos os países que produzem estes componentes. Uma das questões centrais são as matérias-primas necessárias. Os denominados metais de terras raras são os elementos cruciais para toda a indústria eletrónica – a China produz mais de 95% das terras raras do mundo e com isto detém o monopólio e controla o seu preço no mercado.
É por isto que o controlo dos minerais estratégicos é uma questão geopolítica crucial. Existem em Portugal alguns recursos minerais estratégicos (como o lítio), mas também terras raras, sendo contudo necessários projetos de I&D para avaliar a possibilidade de aproveitamento destes materiais.
A digitalização está a entrar em todos os objetos e a internet das coisas (IoT) promete conectar todo o tipo de dispositivos de forma a ser possível sensorizar e ler dados de equipamentos industriais mas também de televisores, frigoríficos, estores, alarmes e muitos outros. Todas estas necessidades de crescimento podem não ter suporte pela indisponibilidade de componentes eletrónicos no contexto atual: apenas em 2023 se prevê que o fornecimento destes componentes regresse à normalidade.
Mais uma vez vemos é o contexto internacional a criar interrupções em diversas cadeias de abastecimento e a conduzir à escassez de produtos. A Europa terá de dar atenção à valorização dos seus recursos minerais estratégicos, fundamentais para a sua estratégia industrial futura.

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