Opinião: À Mesa com Portugal – Quem vota no Doce da Casa?

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Votava sim. Não que este infeliz tenha a sorte de entrar em qualquer votação, mas para mim, o Doce da Casa não é um filho bastardo da nossa cozinha, é sim um legítimo representante de uma doçaria simples e descomplexada. Vejamos, quem nunca comeu um que se levante. Eu acho que já todos comemos, até porque, fora a trilogia bolacha, chantilly e leite condensado, há uma variedade de receitas de acordo com os gostos de quem está na cozinha. E é claro que sabe bem, não tinha porque não saber.
Fora as experiências domésticas de muitas famílias, rapidamente, o Doce da Casa ganhou expressão como a sobremesa da maioria dos restaurantes de ementa de preço médio. Talvez fosse uma forma de sair do registo dos doces com lugar cativo, era rápido e barato de se fazer e agradava a miúdos e graúdos. Tanto foi assim que ficou batizado de Doce da Casa, o doce que todos os restaurantes faziam mesmo que alguns, de forma a fugir à massificação da sobremesa, lhe dessem outro nome.
Não sei a vossa opinião, mas eu não desprezo o Doce da Casa. Antes pelo contrário, às vezes até gosto de apreciar as diferenças entre uns e outros. O que um leva a mais, o que o outro leva a menos. Sobretudo, podemos pensar porque se tornou este doce num ícone da restauração nacional. Porquê? Porque é que se aceitou esta sobremesa como o Doce da Casa?
Bom, talvez porque sabe bem? Talvez porque é fresco? Talvez porque se feito com bons produtos não é muito doce e é agradável ao palato? Talvez porque nos remete para um certo ar de pastelaria francesa que, entretanto, caiu no vazio? Bem, se esta sobremesa se institucionalizou é porque deve ir ao encontro do sabor das pessoas. É certo que batatas fritas com intensificador de sabor também vão ao encontro do gosto das pessoas e nem por isso são recomendáveis. Mas neste caso, eu acho que devemos um pedido de desculpas ao Doce da Casa. Não o devemos repudiar e colocar no rol dos ilegítimos. É um filho legítimo e, daqui a 50 anos, constará dos livros de cozinha.
A vulgarização não tem de ser algo que desprestigia a receita. A maioria das receitas que hoje aceitamos como legítimas tiveram que se vulgarizar, entrar em todas as casas, receber vários acrescentos e reduções e até sofrer alguns ultrajes para se afirmarem. Não existem receitas de primeira e receitas de segunda. Receitas de classe média baixa e receitas de classe média alta. Existem receitas. A sardinha assada a pingar em cima de uma fatia de broa não era, no final do século XIX, propriamente sinal de bom gosto. Só os pobres e os remediados comiam tal alimento, espécie de “street food” da época destinada aos trabalhadores que passavam. Hoje é sinal de elitismo gastronómico.
Uma simples cavaca, daquelas de romaria, era miminho doce destinado aos mais pobres. Sinal de que havia uma pausa na frugalidade alimentar. Os mais abonados aguçavam o seu apetite com doces bem mais elaborados. Hoje, a Cavaca é um dos doces mais afamados e entra no rol da doçaria nacional.
Eu, como vos disse, não tenho nada contra. Não gosto nada de criar hierarquias entre a nossa doçaria ou gastronomia. Gosto de tudo no seu contexto. E sinceramente, perante algumas “inovações” que me vão apresentando sob o tom da “criatividade” onde estão supostamente todos os sabores, mas onde nenhum se sente, prefiro o Doce da Casa. Aliás, para o almoço de família do próximo domingo vou fazer o Doce da Casa. Saudade.

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