Opinião: “Os homens providenciais”

Posted by

O cronista Rui de Pina assinala a morte d’El-Rei D. João I a 14 de Agosto de 1433, véspera da Assunção da Virgem Maria e aniversário da batalha de Aljubarrota. Contudo, parece ser hoje consensual entre os historiadores que o rei não faleceu a 14, mas sim a 13 de Agosto, tendo a data sido convenientemente atrasada de forma a sublinhar os favores do Céu para com tão ilustre defunto e, sobretudo, para com a nova dinastia por ele fundada.
Táticas como esta, mais sofisticadas ou mais ingénuas, são desde há muito utilizadas para elevar os méritos daqueles que ocupam lugares de comando. Contudo, mais perturbador do que o recurso a expedientes, por parte de alguns, para burilar currículos, é a necessidade de muitos em encontrar líderes providenciais, de perfil perfeito, em que possam confiar cegamente. Naturalmente, a margem para desilusão é grande, sobretudo nas modernas democracias em que a informação circula rapidamente e os deméritos das figuras destacadas tendem a ser escalpelizados com um nível de pormenor que deixaria em maus lençóis não só a El-Rei D. João I mas também à maior parte da sua ilustre ascendência e descendência.
Estes desiludidos do messianismo humano tendem depois a desenvolver um mecanismo de defesa igualmente infantil, duvidando de todo e qualquer ser humano, especialmente se alvo de destaque ou em posição de liderança. Estes órfãos do sebastianismo alimentam-se subsequentemente de teorias da conspiração construídas por outras pessoas, essas sim da maior confiança, e que a partir de algum recanto da internet revelam verdades cósmicas sobre a cor de Marte, a história náutica ou os efeitos da vacinação.
O cristianismo apresenta a este respeito uma forma de estar muito vantajosa: por um lado, ao afirmar que o Messias já veio, liminarmente exclui a vinda de qualquer outro. Por outro lado, ao afirmar a natureza limitada de cada ser humano, constantemente apela ao amor ao próximo, incluindo na correção das suas faltas. (Sendo escusado lembrar que, no passado, presente e futuro, muitos “cristãos” não perdem o ensejo de corrigir as faltas alheias esquecendo-se de o fazer em amor pelo próximo.) Os três papas mais recentes, cada um a seu modo, deram importantes contributos na luta contra uma perniciosa forma de messianismo papal que tão maus resultados deu no passado: S. João Paulo II com a imensa fragilidade que caracterizou os seus últimos anos, Bento XVI com a revolucionária renúncia ao papado, Francisco com o permanente pedido em todas as suas intervenções: “Rezem por mim.”
O cristianismo é, contudo, suficientemente audacioso para afirmar a fé na humanidade, quando unida no Amor. Parafraseando o bem-humorado apelo de Joseph Ratzinger aos não-crentes, talvez não seja verdade, mas é algo em que vale a pena acreditar.

P. S. O desaparecimento prematuro de Norberto Pires é fonte de profundo pesar. Académico distinto, a sua energia, dedicação, visão e inconformismo far-nos-ão a todos muita falta.

Pode ler a opinião de Rui César Vilão na edição impressa e digital do DIÁRIO AS BEIRAS

4 Comments

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado.

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.