Opinião: O poder das narrativas

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O que é que nos torna superiores aos outros animais? Os estudiosos não se cansam de admirar outras espécies (já agora, em extinção), desde os elefantes às baleias e a certas aves canoras. Mas sim, o desajeitado Sapiens sobreviveu à custa da extinção dos outros e, tantas vezes, dos seus semelhantes. Do outro lado da medalha, também se pode constatar que nenhum outro animal pôde construir edifícios, obras de arte, instrumentos ou estações espaciais, nem descobrir aquilo de que é feito, sejam átomos ou genes, nem criar a Filosofia ou a Matemática.
O que nos distingue então? Será a alma e o espírito ou a mente e a consciência? Por muito que a religião ou a ciência nos dêem estas respostas, elas são pouco claras e não é seguro que não existam noutros animais. Podem ser uma justificação para a nossa superioridade, mais do que a constatação de um facto.
É certo que também falamos. E embora saibamos que outros animais se comunicam de vários modos, nenhum deles tem uma linguagem que possa ser directamente exprimida e simultaneamente registada em paredes, tábuas, papiros ou papel. E é por essa linguagem que nós podemos viver no presente mas também no passado e no futuro, assim possamos descrever as (ou pensar nas) narrativas que para lá nos levam. Com nenhum animal conhecido assim parece acontecer.
As narrativas também facilitam a cooperação. As mais perenes são as religiosas, que permitiram que milhares de pessoas cooperassem umas com as outras e dessem a vida pela crença comum que delas deriva. As narrativas patrióticas tiveram (e têm) o mesmo efeito. Todas elas estão escritas e são celebradas, mas nem sempre os historiadores as confirmam. No século XX predominaram as ideológicas, agora em queda. Narrativas menos grandiosas, são lendas locais, histórias da família, frequentemente ficcionadas, mas importantes para o sentimento de pertença. É delas que se faz a nossa identidade individual, baseada numa memória que nem sempre é exacta.
Com o conhecimento crítico que explodiu no Século XXI, com a Internet e as redes sociais, assistimos ao declínio das grandes narrativas e crenças agregadoras. Não deixaram de existir, mas estão pulverizadas em volta das redes sociais e são muitas vezes insólitas e inventadas ao sabor das circunstâncias. Agregam efemeramente pequenos grupos mas perderam a capacidade de nos fazer cooperar em larga escala.
A crença mais resistente é a de que as folhas de papel, a que chamamos dinheiro, têm valor equivalente aos bens que consumimos. E porque ainda acreditamos nisso, apoiados nas várias narrativas que os economistas debitam, vamos continuando a cooperar. Mas o que acontecerá se essa crença também acabar?

Pode ler a opinião de Pio Abreu na edição impressa e digital do DIÁRIO AS BEIRAS

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