Opinião: Coimbra Literária

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Coimbra é historicamente a maior cidade literária do país.

Desde logo pelos universitários que aqui viveram e se transformaram depois em grandes escritores.

Todos eles, de uma forma ou de outra influenciados pela beleza natural da cidade do rio Mondego; mas também por tudo o que em Coimbra viveram, desde paixões avassaladoras à revolução individual ou coletiva que fixaram em poemas, livros e opúsculos.

A Questão Coimbrã ficará para sempre na história da literatura portuguesa como um grito de novos tempos, perante um serôdio conservadorismo, que apesar dos simbolistas, presencistas e neorealistas continua, em pleno século vinte e um, na mesma conservadora Escola que cultiva a pompa e a circunstância de um cânone que não representa nada nem ninguém, a não ser alguns herdeiros do conselheiro Acácio que ainda vivem na Lusa-Atenas, e que um inspiradíssimo Eça de Queirós situou em Coimbra.

Mas tudo isto pertence à História da Literatura Portuguesa que podemos acompanhar através dos livros, em testemunhos precisos e invioláveis da nossa humanidade coimbrã.

Permitam-me que vos conte alguma da realidade que vivi na minha chegada a Coimbra, em 1991, com a ideia fixa de ser editora.

Sem Escola que ensinasse profissionalmente o ofício (um dos mais belos do mundo), voltei-me para as editoras de Coimbra.
Primeiro a Livraria Almedina e a que levava o nome da cidade; e foi com horror que avistei as suas obras: enormíssimos tomos de direito penal, administrativo, ou o código civil com quem pratiquei desde logo uma distância saudável.

Voltei-me então para uma cave, onde uma cooperativa editava livros de poesia, sobre a coordenação de Alfredo Soveral Martins.

Para meu espanto também a cooperativa era uma junta de juristas, Orlando de Carvalho, António Arnaut, além do Soveral Martins, com escritório de advogado na Av. Sá da Bandeira, junto à Associação Académica de Coimbra.

Felizmente, também como cooperante encontrei Júlio Henriques, um homem das letras, que disputou com Soveral Martins o lugar do homem mais afável, sensível e inteligente de Coimbra nesses anos noventa.

O Soveral Martins venceu a prova pela proximidade, confissões revolucionárias, paixão pelos livros; e violentas discussões que transformaram a nossa relação numa amizade sincera.

Havia na cooperativa ainda uma mulher misteriosa e ausente das reuniões, mas com uma contribuição importante: Maria Irene Ramalho.

A dinamização de um Livraria era o grande projeto na altura; e para o qual a minha chegada como colaboradora dava sentido.

A Cooperativa Fora do Texto, herdeira da mítica “Centelha”, além do espólio desta, um catálogo político-revolucionário que fez as delícias da minha curiosidade insaciável; guardava preciosidades como “Vestígios”, do inclassificável Joaquim Manuel Magalhães; que conheci pouco tempo depois, no Edifício Chiado, na Rua Ferreira Borges; e “Os Pés Luminosos”, de Jorge Sousa Braga; além de uma relação privilegiada com a Frenesi que editava na altura livros da Adília Lopes e outros autores de culto numa coleção quase manufaturada mas belíssima.

A Fora do Texto estava nesse tempo com problemas económicos com o anunciado fim da distribuidora de livros CDL; uma das maiores do país, e que distribuía além da Caminho e muitas outras editoras, a cooperativa de Coimbra.

Um dia, acompanhei o Soveral Martins na tentativa de recuperar parte da dívida que a CDL mantinha com a Fora do Texto, por muitos livros vendidos e ainda não pagos.

Por impossibilidade visível e assumida para o seu pagamento, levaram-nos a um gigantesco pavilhão em Sacavém, onde recolhemos parte do espólio ainda armazenado da CDL para venda na Feira do Livro de Coimbra, em plena Praça da República, de modo a amortizar a dívida.

Os livros disponíveis eram de uma editora russa, o que me causou um enorme cepticismo; que foi vencido facilmente pelo entusiasmo de Soveral Martins que dando um foro de aventura à questão, exclamava: “Isto vende, isto vende em Coimbra”.

A verdade é que eram livros de matemática e química e outras ciências em que os números dão uma universalidade sem grande necessidade de tradução, o que não me tinha ocorrido.

E na minha primeira Feira do Livro em Coimbra, em 1992, vendi que nem pães quentes esses livros que, entre outros títulos, estava o magnífico e cinzento “Resistência de Materiais”.

Conheci nesse primeiro ano o Luís Oliveira, editor da Antígona; e o segredo do Professor todo-poderoso da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, Orlando de Carvalho, que me apareceu como poeta (com pseudónimo) no pavilhão dos livros; através dos seus alunos que visitavam o livro na feira e, abrindo-o, partilhavam confidências jocosas entre si, fazendo notar que, para eles, aquela era a máxima fragilidade do seu exigente professor, e matéria em que eles podiam dar a nota final.
Coimbra já nem Feira do Livro tem, enquanto Porto e Lisboa conseguiram superar as dificuldades da pandemia continuando a investir nas suas Feiras do Livro; em Coimbra, apesar da aspiração a Capital Europeia da Cultura, todos baixaram os braços em sinal de desistência.

Também já ninguém na cidade edita a Ana Luísa Amaral, nem Jorge de Sena; e muito menos António Ramos Rosa, Giánnis Ritsos para só falar dos poetas da Cooperativa Fora do Texto.

Sei que Miguel Torga editava por sua conta, na Gráfica do Padre Valentim (quantas histórias para vos contar) os seus livros; e que Agustina Bessa-Luís viveu uns anos em Coimbra; foi ela que me o revelou, com muito humor, numa tarde extraordinária em que descemos de braço dado (os sapatos novos e apertados da escritora assim a obrigou) a Rua de Santa Catarina, no Porto, depois de um lanche no Majestic, a caminho da Livraria Lello, onde apresentou o livro “Sangue”, de Camilo Castelo Branco, da Quarteto Editora, de Coimbra, que também já não existe.

Para não dar a esta crónica o tamanho de um suplemento; seleciono apenas alguns dos “verdadeiros” autores de Coimbra: Antero de Quental, Camilo Pessanha, Eugénio de Andrade; Carlos de Oliveira, Vergílio Ferreira, Eduardo Lourenço, Vítor Matos e Sá, e esse grande escritor que foi (e é) Ruben A. que no segundo volume de “O Mundo à Minha Procura” imortaliza Coimbra.

E, para terminar, na categoria de maiores que a cidade de Coimbra, destaco três: Mário de Sá-Carneiro, Herberto Helder e Alberto Pimenta.

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