Opinião – À Mesa com Portugal – Pastel de Tentúgal, A Queda de um Anjo

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Não costumo falar do pastel de Tentúgal, pelas razões que alguns conhecem. É o doce da minha terra, é o doce maior que a minha mãe fez ao longo de sete décadas, é o doce do meu coração para além dos muitos que conheço, que aprecio e que distingo. Mas hoje não resisto.
Penso em como este doce evoluiu, ou não, nos últimos 20 anos. Há cerca de 16 anos, imbuídos da convicção de que o Pastel de Tentúgal merecia outra distinção, atrevemo-nos a fazer o processo de qualificação IGP. Arduamente, trabalhámos num processo excessivamente burocrático. Juntámos os pasteleiros todos e qualificámos este pastel. Destacámos a sua singularidade de sabor e textura e dignificámos o seu processo de produção. Afinal, a massa em ponto de véu não é para todas as mãos. Só mãos de ouro acompanhadas de um espírito que acredita na alquimia da doçaria podem fazer aquelas folhas tão delicadas e transparentes. Estudámos, analisámos, quantificámos, relacionámos. Em 2013, finalmente, veio a aprovação da IGP. Costumo dizer que de tudo o que já liderei na vida, esse foi o passo de que me orgulho mais.
A acompanhar esse reconhecimento nacional e europeu desenvolveu-se um outro processo. De uma forma pioneira, desenvolvemos turismo gastronómico em Tentúgal. Ainda hoje, é difícil encontrar uma rota de turismo gastronómico como temos na nossa vila. Acreditámos que podíamos juntar a doçaria, e todo o seu saber-fazer, ao património histórico e arquitetónico. Ao longo de 13 anos foi possível trazer inúmeros visitantes a Tentúgal dando a conhecer esta vila para além da Estrada Nacional 111. Muito caminho se desbravou, pois se no início os pasteleiros nem sequer queriam mostrar como se fazia a massa, hoje até o fazem enquanto as pessoas compram o pastel. Chamam-lhe produção ao vivo.
Se fui uma das pessoas que liderou o turismo gastronómico em Tentúgal, confesso que tenho algumas dúvidas quanto a este destapar tão escaqueirado de todo o processo. Não se trata de copiar o segredo, mas trata-se de expor aquilo que não deve ser exposto de forma tão vulgar. A produção da massa é um ato de enorme inspiração, mas que não deixa de ser acompanhado de esforço. E não é simplesmente cozinhar um guisado. Deve ser acompanhado de recato, de silêncio, de mistério. Não porque as pessoas não devam poder ver, mas devem ver e sentir a magia, não de forma apressada, no ruído da passagem, mas na calma da visita em que se quer conhecer porque é o Pastel de Tentúgal tão especial.
Sinceramente, vejo o Pastel de Tentúgal perder a magia, o misticismo e ganhar contornos de um mercantilismo que o destrói. Querer conhecer melhor o Pastel de Tentúgal deveria obrigar a uma visita em que se pudesse explicar as suas singularidades. Isso sim é turismo gastronómico, o resto é atividade comercial que mata a galinha dos ovos de ouro. Em tudo isto, não quero falar do circo que foi montado na última participação do Pastel de Tentúgal no concurso das 7 Maravilhas. Saltou-se, gritou-se, berrou-se, como se o Pastel fosse um doce de estrada. Pelos vistos, sem resultados positivos. Mas, ainda não é tempo de falar disso.
Depois disto, restará o quê? Teremos um doce que subiu ao topo e que caiu e que cai todos os dias. Passado duas décadas de todos estes movimentos penso o que ganhámos? O que ganhou Tentúgal? Mais visitantes, sim. Mas, e o valor do Pastel de Tentúgal? Foi dignificado? Ou continua a seu preço continua a ser regateado como se fosse mercadoria barata? Uma análise aos preços mostra muito bem que não se atingiu grande coisa. É pena, mas em algumas situações, o pastel é vendido a menos de meio euro. Ganhou-se mais clientela, sim, mas e o resto? Choro pelo meu Pastel, dói-me o coração pelo nosso tesouro maior, aberto e exposto como coisa vulgar.

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